A taxa de câmbio também interessa aos negros

Uma conhecida me encontrou na rua e perguntou por que eu não escrevi matérias sobre o dia 20 de novembro. Respondi brincando que esse tema é exclusividade de uma colega minha de redação. Mas, falando sério, sempre fiquei desconfortável com a idéia de que pessoas de pele escura têm que estudar assuntos relacionados à África ou ao universo afro. Lembro que há mais de 10 anos uma amiga demonstrou surpresa quando apareci no trabalho com um livro de alemão debaixo do braço. Disse-me que eu deveria priorizar um idioma que “estivesse mais próximo à minha cultura”. Pensei com meus botões que ela queria que eu me matriculasse em um curso de iorubá. O problema é que, a rigor, eu tenho tanta proximidade do continente africano quanto do europeu: nenhuma. Nada, além do fato de alguns dos meus longínquos antepassados terem vindo do outro lado do Atlântico, faz com que eu me identifique culturalmente com a Nigéria, o Sudão ou Angola. A verdade objetiva e, digamos, clara é essa.
A Fundação Palmares elaborou há alguns anos, juntamente com o CNPq, uma base de dados com pesquisas acadêmicas desenvolvidas em todo o País que “interessam à população negra”. Imagino que dificilmente se encontrará nesse rol um artigo sobre taxas de câmbio. Mas a cotação do dólar é um assunto que atinge a todos os brasileiros. Por outro lado, o chamado universo afro não pertence aos negros, e sim à humanidade, tal como o Holocausto e a Guerra no Iraque. Eu quero escrever sobre tudo, não apenas sobre o que diz respeito à África.
O Dia Nacional da Consciência Negra é importante, sim, para o combate ao racismo e às desigualdades sociais. Obviamente, a maioria das pessoas com a pele negra no Brasil tem menor acesso a educação, os trabalhos com piores salários e de menor status e, não raro, são vistas com desconfiança por donos de restaurantes finos e policiais. Mas a enfatização das “diferenças raciais” não ajuda muito a combater as desigualdades. Primeiro, porque a dignidade de um ser humano, seja qual for a cor da sua pele, deve interessar a toda a sociedade. Homens brancos e heterossexuais devem estar igualmente comprometidos com o respeito às mulheres, aos negros e aos homossexuais. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, biólogos e antropólogos de todo o mundo já vaticinavam: não existe raça negra, índigena ou branca. A raça humana é uma só.
Segundo, porque a solidificação de um “universo negro”, englobando culinária, costumes e religiões da África, abre caminho para que se estabeleça justamente, como contraponto, o “universo caucasiano”. Se todo homem consciente de sua negritude tem que estar vinculado ao candomblé, andar de bata e comer dendê, os brancos estão igualmente obrigados a professar o cristianismo e ouvir música erudita. Roqueiro sem melanina, saia desse corpo que ele não te pertence! A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador, por exemplo, acredita piamente que existem “doenças da raça negra”, como a anemia falciforme. Os gestores de saúde pública ignoram solenemente que os genes da enfermidade estão ligados à ancestralidade e não à cor da pele. Em um país miscigenado como o Brasil não é difícil encontrar pessoas socialmente aceitas como brancas que são portadoras da anemia ou apresentam traço falciforme. Mas a prefeitura insiste em segregar o atendimento, fazendo inclusive feiras de saúde em terreiros de candomblé. Afinal, negão que é negão é de santo. Alguns evangélicos e católicos, especialmente os de baixa escolaridade, dificilmente iriam procurar atendimento em templos de religiões politeístas. Como o Brasil é um país laico, as autoridades de saúde não podem tomar partido. Se a feira é feita no terreiro, tem que ser feita também em outros ambientes religiosos.
O combate às desigualdades sociais não deve ser racializado, apesar de a maioria dos pobres no Brasil ser de negros. A sociedade tem que perseguir a melhoria de vida de todos os cidadãos. A política de cotas é um excelente instrumento de inclusão social, mas não deve ser endereçada oficialmente aos negros, e sim aos pobres. No fundo, o resultado será praticamente o mesmo. Mas além de não excluir do benefício os brancos pobres (acho que a idéia não é essa) não se prestará a servir de palanque para a exaltação das supostas diferenças entre brancos e negros. Isso já foi tentado na Alemanha por um baixinho austríaco e não deu muito certo. Fui claro?