Disseram que voltei heterossexualizada

Depois de morar por um período nos Estados Unidos, a fenomenal Carmen
Miranda, (1909-1955), teve que gravar a canção “Disseram que voltei
americanizada” para aplacar críticas que sofreu no País. Era a Pequena
Notável (a verdadeira, não a do Babado Novo) reafirmando as suas
raízes. Este ano, o babado novo foi a explicação que Margareth Menezes
deu no desfile do bloco “Os Mascarados”, no Farol da Barra. Maga, como
é chamada pelas bichas, desabafou, disse que não quer servir de
exemplo para ninguém, que a única coisa que ela sabe fazer bem é
música (não se deprecie, mulher!) e que para ela tanto faz se as
pessoas são brancas, negras, heterossexuais ou homossexuais.
Militantes radicais dos direitos humanos enxergaram em seu discurso
uma certa indiferença em relação aos bissexuais mulatos.
O fato é que parte considerável dos antigos associados do bloco
resolveu boicotar MM, depois que elas fez afirmações do tipo: eu estou
cantando nesse bloco gay, mas eu não sou gay! Eu não sou gay!!! Este
ano mesmo teve gente que observou o desfile do lado de fora das
cordas, batendo o pezinho, olhando para o lado e dizendo “humpf”.
Dentro, um rapaz com a camiseta de convidado comentou com dois amigos:
ela deu uma baixa nos veados.
Com o bloco cada vez mais cheio, já se pensa em nova facção para 2008.
Além dos Descarados, os Discarados e os Desmascarados, alguns
excluídos pensam em lançar os Massacrados. Um fotógrafo amigo meu que
chegou de Angola está batalhando financiamento oficial para uma
maga-exposição, quer dizer, mega-exposição sobre o tema. Cada
ex-mascarado tem uma queixa. Ela já não é a mesma, está se aproximando
dos mauricinhos, o bloco está inflado, não dá para ouvir direito a
música quando se fica muito à frente ou muito atrás, não tem mais
concentração para ficar dando pinta até a hora da saída e, para
completar, Maga foi fazer os ensaios para o Carnaval no Rio de
Janeiro. “Por favor, fale mal dela”, pediu um associado ao final do
desfile. Ele reclamava a ausência de uma música forte para este
Carnaval. Nem que fosse “Disseram que voltei heterossexualizada”. Já
seria alguma coisa.
Mas mesmo com o boicote, o bloco foi praticamente o mesmo de sempre,
divertidíssimo. Por ausência de militância ou por falta de
alternativa melhor, povo que gosta de se fantasiar estava quase todo
ao redor de Margareth, dentro ou fora das cordas. Honestamente, quem
aceita desfilar em um bloco em que meninas de cabelo liso são
escolhidas a dedo, no bom sentido, e recebem as camisetas de graça
para atrair os machões que pagam para “ter um harém”?
Gostando-se ou não de Margareth, Os Mascarados continuam sendo a coisa
mais irreverente da folia baiana, ao lado da Mudança do Garcia. Em
nenhum outro lugar é possível ver uma cordeira largar o trabalho para
dar um tapa na bunda de um associado que está se agarrando com outro
homem ao lado do trio elétrico. “Posso ficar ao lado de vocês? As
pessoas aqui são muito estranhas!”, disse um conhecido mascarado que
juntamente com seu grupo vestia-se de ave com um nariz em forma de
pênis. “Tem razão, eu mesmo estou me sentindo estranhíssimo com meu
cabelo lambido pela chuva”, respondi.
Mas mesmo com tanto escracho, alguns associados ainda não têm coragem
de abraçar publicamente o amor que não ousa dizer o seu nome. Uma
colega minha viu de longe um amigo de infância e saiu correndo para
cumprimentá-lo. O rapaz se escondeu enquanto pôde e depois deu abraço
sem graça na amiga. E olha que ele não estava fazendo nada de
“errado”. Apenas estava em pé entre os mascarados. As pessoas são
realmente estranhas.