Se der o dedo, vai querer a mão

Em um artigo publicado neste domingo em vários jornais do país, sob o título “Luta de Classes”, a jornalista Danuza Leão, que mora na cara zona sul do Rio de Janeiro, usou uma experiência pessoal para ratificar a ideia de que simplesmente não é possível tratar os empregados domésticos de igual para igual, por mais que o patrão seja um humanista, porque a tendência é que o funcionário passe a abusar da confiança e queira cada vez mais benefícios. No Brasil, aliás, existe uma expressão corriqueira para esse tipo de comportamento: se você der um dedo, ele vai querer a mão.
Na história narrada pela jornalista, a empregada, com quem ela sempre manteve relações cordiais, passou a lhe fazer companhia em um clube social diariamente, antes de começar as suas atividades profissionais na casa de Danuza. Sentindo-se confortável com o tratamento dispensado, a empregada começou a investir por conta própria em seu bem estar, à revelia da patroa, abrindo a geladeira para beliscar um queijo gruyère e até chamando o seu companheiro para desfrutar do imóvel da jornalista nos fins de semana em que ela estava ausente.

Não há dúvidas de que deve-se manter uma distância respeitosa entre duas pessoas quando há uma relação de poder. Isso vale para pais e filhos, donos de jornal e jornalistas, patrões e empregados domésticos. Mas ao assinalar no fim de seu texto que a luta de classes começa na geladeira, a jornalista deixa escapar, involuntariamente ou não, a sua crença na divisão social. A pessoa que cozinha, lava e passa não está prestando um serviço que mereça ser dignamente remunerado, se possível de modo a permitir um pacotinho de queijo gruyère no mercado da empregada, mas assumindo a parte que lhe cabe, o papel de subalterno.

Tratar de igual para igual um empregado doméstico não está relacionado, necessariamente, com a iniciativa de levá-lo ao clube social. Os dois lados, patrão e empregado, têm que enxergar a sua relação como um vínculo profissional, em que a parte mais frágil é contratada para fazer as tarefas domésticas, o que não deveria incluir o uso obrigatório de um uniforme, de um elevador de serviços ou qualquer forma de segregação.