Uma cidade, um amor, realização profissional. O que importa mais?

Cena de Meia-Noite em Paris
Cena de Meia-Noite em Paris

Habitantes de uma das cidades mais admiradas pelos brasileiros, os portenhos costumam perguntar, com certo ar autodepreciativo, “o que você faz aqui?” aos vizinhos que se aventuram a viver em seu território. E mesmo sem o vigor de épocas douradas, Buenos Aires, a Rainha do Prata, a Paris da América, continua despertando em parte de nós o amor por aquilo que não dispomos em casa.

É basicamente dessa insatisfação com o que temos que Woody Allen trata em Meia-Noite em Paris. Gil Pender (Owen Wilson) é um roteirista bem-sucedido em Hollywood, mas não vê muito valor artístico em seu trabalho e está cada vez mais interessado em literatura e na Paris dos anos 1920, a atmosfera ideal para um cara que se aventura em seu primeiro romance. O que, afinal, o satisfaria plenamente?

Em uma viagem à capital francesa, juntamente com sua noiva e os pais dela, Gil vê cada vez mais explícitas as diferenças entre os seus sonhos e os de sua companheira. Enquanto a família dela está interessada em negócios, compras e visitas guiadas a museus, o escritor se envereda por encontros com Picasso, Hemingway, Buñuel, Dali, T.S.Elliot, Zelda e Scott Fitzgerald, entre outros, depois de tomar umas e sair caminhando sozinho pelas ruas de Paris.

O filme repete elementos constantes na obra de Allen, como a insatisfação profissional, a busca por uma relação amorosa realmente estimulante, uma certa confusão intelectual e afetiva e, mais recentemente, as diferenças culturais entre estadunidenses e europeus.

Admirador do sueco Ingmar Bergman, Allen encontrou um porto seguro na Europa quando começou a ter dificuldades para rodar seus filmes em sua amada Nova York por questões financeiras. Londres, Barcelona e Paris viraram locações para suas histórias.

E quando a França negou apoio à Invasão do Iraque em 2003 (o filme menciona esse episódio), Allen estrelou um comercial convencendo os seus compatriotas a visitar a Cidade-Luz, depois que garrafas de vinhos franceses começaram a ser jogadas fora por estadunidenses indignados com a postura de Jaques Chirac.

Como atrativos à parte, a trilha sonora de Meia-Noite em Paris traz a canção Let’s do it, composta em 1928 por Cole Porter, e que no Brasil ganhou a versão Façamos, de Carlos Rennó, interpretada por Elza Soares e Chico Buarque, além da rápida e charmosa aparição da primeira-dama francesa Carla Bruni, cujo papel de uma guia turística bilíngue, apesar de pequeno, é muito importante para a narrativa.

Meia-Noite em Paris não apresenta muitas novidades para a carreira de um diretor que desde meados da década de 1970 se concentrou em escrutinar as insatisfações e os desejos. Dá inclusive para perceber quem vai formar um par romântico com o escritor na primeira cena em que os dois se encontram.

Mas a forma como ele dialoga, na pele de Wilson, com ícones da primeira metade do século XX rende boas piadas. Um filme que já é a melhor bilheteria de Allen nos últimos 25 anos, segundo a Sony Pictures Classics.