Por quê o Filhos de Gandhy seduz as mulheres, exceto Daniela Mercury?

Por razões profissionais, acompanhei o desfile do Filhos de Gandhy no domingo, da Praça Municipal ao Campo Grande.  Pela primeira vez, fiz esse trajeto em cima de um trio. Foram mais de quatro horas de ijexá, ajayô, distribuição de pipocas e de tchauzinho para pessoas conhecidas. Daniela Mercury teria se jogado do alto ainda na Castro Alves, mas para um iniciante foi divertido ver a movimentação nas cordas, com a disputa por colares, beijos e alfazema.

Mais engraçada ainda foi a reação que tive quando uma pomba pousou em minha cabeça. Parecia que eu estava tendo um ataque de epilepsia enquanto tentava me desvencilhar da ave. Um FDG se aproximou e disse que eu não precisava ficar nervoso, que era sinal de que eu não estava carregado. Fiquei feliz com o diagnóstico, mas meu medo era justamente que a pomba carregasse me cabelo com algum material indesejado.

Durante o trajeto, algumas coisas vieram à minha cabeça (além da mencionada pomba). Uma delas foi a indagação sobre o que leva tantas mulheres a cobiçar os colares e, muitas vezes, os donos dos colares. É inegável que um homem bonito vestido de FDG causa sensação. Mas pela minha avaliação aérea esse não é o caso de 20% dos caras que formam o tapete branco. E imagino que muitos desses homens não chamariam a atenção sem aquela fantasia.

Mas ao redor das cordas, e também longe do bloco, mulheres de todos os perfis e idades gostam da aproximação de um FDG e da barganha, que às vezes é rápida e em outras parece uma rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio. Uma amiga que mora no exterior e não pulava o Carnaval havia dez anos gastou parte de sua energia em busca de um colar dado por um Gandhy, ainda que ela não estivesse disposta a beijar ninguém. Ela é casada.  Pensei que seria  possível conseguir o objeto depois e entregar a ela. Mas logo ficou evidente que a entrega deveria ser feita por um FDG.

Identifiquei um jovem conhecido na Barra, na terça-feira, já sem o turbante e com o peitoral à mostra. Da fantasia mesmo restavam os colares e algo branco que o cobria da cintura para baixo. Falei sobre o desejo da moça e ele me perguntou que tipo de relação nós tínhamos. Se eu tivesse dito que era minha namorada, provavelmente ele liberaria o adereço. Mas como éramos amigos, ele se sentiu obrigado a manter o ritual do escambo.

Mais tarde, um outro FDG perdido do bloco se aproximou e perguntou se as três moças ao meu redor estavam comigo. Afirmou que, caso positivo, ele não “colaria”. Retruquei que era uma decisão delas. A abordagem não agradou muito e uma delas disse que eu tinha adquirido a promoção “três periguetes por R$ 5”. O rapaz foi sem deixar o colar.

Eu já estava pensando que se era tão importante ter o colar talvez valesse a pena o beijo.  Não ia tirar pedaço e ela teria o que desejava.  Mas ela permaneceu firme no propósito de não colocar nenhum tipo de turbante na cabeça do marido.

O colar acabou sendo conseguido na situação mais improvável, quando dois caras de branco se aproximaram simultaneamente e tentaram uma negociação de risco. Ela conseguiu o colar sem dar um beijo, o que contraria o código de ética do FDG e a tabela em vigor no mercado. Mas eu continuei sem entender porque aquelas bolinhas brancas e azuis são tão importantes.