Roma, a Cidade Eterna, e o desejo de ser imortal


Benigni interpreta Leopoldo, um trabalhador romano que vira celebridade da noite para o dia: dá para voltar a ser um zé ninguém depois de ficar famoso em todo o país?/ Foto: Divulgação

Uma frase atribuída a Woody Allen diz que ele não quer obter a imortalidade através do seu trabalho, mas permanecendo vivo eternamente. Esse humor em torno do desaparecimento físico aparece desde a primeira cena de Allen em seu novo filme, “Para Roma com Amor”, que estreia em todo o Brasil nesta sexta-feira (29).

Inconformado com a sua aposentadoria e convencido de que é um talento incompreendido, o produtor musical Jerry (Allen) viaja a Roma com a sua mulher (Judy Davis) para conhecer o namorado de sua filha e, por extensão, os seus futuros parentes italianos. E lá estão no voo as costumeiras piadas em torno da turbulência enfrentada pela aeronave.

Essa é uma das quatro histórias, cada uma delas protagonizada por uma estrela do cinema, que se desenvolvem pelas ruas da Cidade Eterna sem que os seus personagens se cruzem. Aqui, temas caros ao diretor e escritor são distribuídos entre os diferentes núcleos.

Penélope Cruz é uma prostituta que se mete na vida de um jovem casal do interior que acabou de se mudar para Roma. Com a sua ajuda e a dos labirintos da cidade, a fidelidade conjugal passa em poucos minutos de uma hipótese descartada a uma divertida tentação a que são submetidos marido e mulher.

Alec Baldwin é um renomado arquiteto que revisita a cidade onde morou na juventude e vê, com ares céticos, o envolvimento de um estudante em um triângulo amoroso após a chegada da amiga de sua namorada. Ellen Page (a simpática adolescente de June) é a sedutora atriz fracassada que enlouquece o namorado de sua amiga com dramáticas citações de poetas e conflitos existenciais.

E Roberto Benigni (de A Vida é Bela) interpreta um trabalhador arbitrariamente escolhido pela mídia como a nova celebridade local e passa a ser entrevistado sobre todo e qualquer assunto. Seu personagem Leopoldo leva ao extremo a crítica à cultura da fama rápida que Allen abordou em” Celebridade”. O assustador é que, fora o exagero na gênese do estrelato, o comportamento dos jornalistas e do público é bem próximo do que conhecemos na vida real.

A Allen, não coube encenar complicadas discussões amorosas ou elucubrações filosóficas, mas apenas o esforço de um personagem que não desiste de provar o seu talento quando nem a própria companheira acredita mais nele. Críticas à indústria do entretenimento não são novidade para Allen, que já lançou a sua carga sobre o showbusiness no já citado “Celebridade” e em “Dançando no Escuro.” Mas o trunfo de” Para Roma com Amor” é a leveza com que o cineasta expõe o ridículo, como faz alguém que já não se leva tanto a sério.