Ex-chacrete Sarita Catatau encontra fãs no Bar do Chico

 

Em 1964, ano do Golpe Militar que instalaria uma ditadura no Brasil, uma das diversões de Renato, então com oito anos, era assistir à Discoteca do Chacrinha, na TV Tupi. O programa, que foi ao ar pela primeira vez em 1956, ano em que ele nasceu, era então uma excitante novidade com mulheres dançando com as pernas de fora, uma ousadia para a época. Renato via TV na companhia do pai e torcendo para que na hora do programa a mãe não estivesse no apartamento de classe média do bairro da Graça. “Minha mãe não me deixava ver as chacretes, então a gente providenciava que ela fosse fazer coisas com minha tia”, explica. Uma estratégia que vigorou até ele completar 18 anos e ganhar o direito de ter um aparelho de TV em seu quarto. Sem censura.

Numa noite de quinta-feira, em junho de 2016, Renato teve a chance de contar esse episódio de sua juventude a Leila Batista, que nos anos 80 dançava no rebatizado Cassino do Chacrinha, em sua temporada na Bandeirantes, sob o pseudônimo de Sarita Catatau. A ex-chacrete, que mora em Salvador há três meses, juntamente com a filha de 18 anos, declarou-se encantada com o respeito demonstrado por Renato. “Posso dizer excitante?”, hesitou o fã, ao referir-se a uma ousadia que nem era a de Sarita, que só apareceria na TV décadas depois.

Júlio, outro antigo fã das chacretes, foi mais enfático e assumiu que na juventude se masturbava pensando nas dançarinas e deixou a interlocutora ruborizada.
Leila orgulha-se em dizer que era uma das mais recatadas dançarinas do programa. Uma das que mostravam menos. Ela sempre sonhou ser artista, mas diz que não se achava bonita. Gostava mesmo era de dançar e acreditava que tinha um brilho próprio que a levaria ao sucesso.
Para o desgosto do pai, um operário comunista de Santos, São Paulo, que, apesar de ter medo de avião, sonhava em ver a filha aeromoça. Leila desobedeceu e durante seis anos foi uma das dançarinas de Abelardo Barbosa. Foram quase 500 ao longo de quatro décadas.
Rita Cadillac, a mais conhecida, fez carreira de atriz pornô. Outras menos conhecidas tiveram destinos diversos, como a cadeia (após o envolvimento com um traficante), conversão a igrejas evangélicas ou simplesmente o anonimato. Leila nunca conseguiu juntar dinheiro para formar um patrimônio. Dividia apartamento com outras meninas durante a carreira. Depois casou-se duas vezes, foi viver no Ceará e, em março deste ano, s pegou uma viagem de ônibus que durou dois dias até chegar a Salvador. “Sempre quis morar aqui, mesmo antes de ser chacrete”, diz Leila. Aos 19, ela veio conhecer o Carnaval e se encantou com a cidade. Pode ser que em algum momento você a veja em uma rua soteropolitana.