Libanês assume Bar de Espanha nos Barris e atrai clientela mais jovem

20160622_173935.jpgDesde que assumiu o comando do Bar de Espanha, nos Barris, bairro central de Salvador, em dezembro de 2015, o libanẽs Joseph Sleiman trata de mudar gradualmente o pefil do estabelecimento, fundado em 18 de novembro de 1918. Tradicional abrigo de boêmios das antigas, a casa centenária situada em frente à Biblioteca Central recebe cada vez mais jovens. E as razões do dono são basicamente econômicas.

Enquanto alguns clientes antigos sentam-se sozinhos para consumir uma ou duas doses de pinga, a moçada chega em grupos e, animada pela conversa e pela música que Joseph tratou de colocar, manda descer as cervejas num ritmo de download. E, sobretudo, o bar virou um lugar onde se come bem. Um resultado que bate com as observações que o libanês se encarregou de fazer durante um mês, antes de assumir o controle do bar em dezembro de 2015, após avaliar o comportamento da clientela.

Claro que há reclamações de clientes acostumados com o padrão antigo e que queriam que as coisas se mantivessem como antes. Mas o cara que saiu de Beirute para Salvador fugindo da guerra e com a expectativa de encontrar um meio de vida para si e para a sua mãe de 78 anos pensa principalmente no que vai tornar o negócio rentável. Uma abordagem que mudou o rumo do bar depois de uma experiência com outro administrador, que durou dois anos.

Ex-trabalhador do setor de confecção e da indústria de sapatos em sua terra natal, Joseph tem um diploma em mecânica de automóveis, mas ao chegar à Bahia, no ano passado, depois de decidir deixar para trás família, amigos e a tradição nacional, percebeu que a maneira mais prática de se estabelecer no país seria através da gastronomia. E começou  a fazer para os seus clientes  pratos que fazia em casa, como churrasco ao modo libanês e tomates cortados e irrigados com aguardente.

O barulho dos fogos de São João não incomoda o libanês. “Estou acostumado com bombas de verdade e aqui é tempo de festa”, afirma Joseph, que não gosta de discutir política, não se interessa pelo que faz o Hezbollah e nem o governo interino de Michel Temer, que é descendente de libaneses, assim como o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

Joseph só quer que as coisas estejam bem e costuma interromper as discussões entre “petralhas” e “coxinhas” no balcão do bar quando sente que a conversa está saindo do prumo. Mas, embora evite beber durante o expediente, às vezes decide tomar cerveja com um cliente, quando sente que ele precisa desabafar ou está falando coisas que não fazem muito sentido.

A “Fórmula Joseph” tem conseguido lotar com frequência o antigo Bar de Espanha e, às vezes,  o movimento vai até as seis da manhã. O nome ele decidiu manter em homenagem a Seu José, o antigo proprietário, um espanhol que dedicou 68 de seus 84 anos de vida ao velho boteco e que hoje o frequenta como cliente. Todos os dias, ele atravessa o salão de azulejos rústicos no final da tarde, acenando com a cabeça para os presentes, e senta-se na última mesa, reservada para ele, onde bebe tranquilamente a sua Skol.

“Eu decidi não mudar o nome, porque é a história dele”, declara Joseph, que já ouviu o antigo proprietário dizer que as alterações no bar o fizeram rejuvenescer 10 anos. E que ainda pretende voltar ao comando. “Eu trabalharia um ano de graça para ele, mas acho que com essa idade ele não vai voltar de fato”, brinca.

Com seis anos a menos do que Seu José e sem dominar o português, a mãe de Joseph,  às vezes aparece no bar para fazer companhia ao filho e, com as mãos, despede-se de clientes ou indica para eles a localização do banheiro.

Joseph morou em Beirute até os 17 anos, veio para Salvador se reunir a parentes e depois regressou ao Líbano a pedido de sua mãe. Agora, se diz apaixonado pela cidade e rechaça a possibilidade de voltar ao Oriente Médio. “O momento mais difícil foi passar pela Alfândega, porque não teria volta. Agora pretendo morrer aqui”.