Brexit: “A literatura tem o poder de fomentar a empatia”, diz livreira inglesa

Gilson Jorge

 

A composição demográfica do Reino Unido permitiu que os votantes com mais de 50 anos decidissem, no último dia 23 de junho, pela retirada do país da União Europeia, contra a vontade dos jovens britânicos e dos escoceses em geral.

Movidos pelo medo (estimulado pela mídia) da imigração em massa, os mais velhos condenaram o futuro de quem ainda não experimentou plenamente a integração. Aqui, do outro lado do atlântico, a inglesa Sarah Rebecca Kersley, que há um ano inaugurou a livraria Boto Cor-de-Rosa em Salvador, passou o São João checando as notícias sobre seu país, incrédula.

Bisneta de imigrantes lituanos e, agora, ela mesma uma imigrante, Sarah sente que fez a escolha certa ao apostar na promoção de diálogos em seu trabalho. “A literatura tem esse poder de fomentar a empatia”.

A livreira decidiu ir no caminho oposto do mercado. Enquanto cresce a demanda pelo Kindle e por tudo o que pode ser consultado na tela do celular, Sarah resolveu apostar no contato dos leitores com os livros, fisicamente. Nas estantes da Boto, encontram-se obras de baianos contemporâneos, como Karina Rabinovitz, Kátia Borges, Lima Trindade, Nelson Maca e Nilson Galvão. Alguns deles, aparecem lá constantemente em pessoa também.

“É interessante analisar as diferentes visões de pessoas que escrevem no mesmo lugar, na mesma época, e como eles interagem com textos de outros autores”.

Todos os livros do acervo da Boto, de autores baianos, de outros estados e estrangeiros, passam pelo crivo de uma curadoria, que inclui Milena Britto, professora do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Sarah e Milena se conheceram em 2012, quando a professora baiana, então coordenadora do Setor de Literatura da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), era responsável pelas oficinas “escritas em trânsito”, frequentadas pela inglesa.  O contato rendeu uma colaboração perene.

Apaixonada por poesia, a livreira inglesa gosta de ver a Boto como um espaço de troca de conhecimentos e ideias, que vai além dos livros. “Regularmente fazemos encontros com poetas, nosso foco, e conversas sobre processos criativos, mas também discutimos democracia, diversidade, sexualidade, etc…”.

A abertura para ouvir o que o outro tem a dizer a levou, em 1998, a aceitar o convite de um amigo brasileiro para o lançamento da versão em inglês do livro Benjamim, de Chico Buarque, então um desconhecido para ela.

“De lá para cá, o meu interesse no Brasil aumentou e, enquanto estudava português, li cada vez mais publicações na língua”.

Com o tempo, a  inglesa percebeu que havia muito mais para descobrir na literatura brasileira do que a oferta de livros traduzidos para sua língua materna. As poucas palavras que trocou com Chico e o que leu posteriormente ampliaram um diálogo que veio se consolidar em praias baianas, rendendo uma livraria e um café.

Mas ela sente falta de mais interlocutores. “Apesar do fato de eu amar poder me sentar no sofá e ler poesia, queria que o café fosse mais movimentado”.