A primeira vez em que torci abertamente pela Argentina

Minha relação com a seleção da Argentina é repleta de anedotas. Desde uma portenha que ao comemorar o primeiro gol contra a Nigéria, em 2010, saiu até a varanda de seu apartamento em Palermo e ficou com pena, ao me ver na  rua sozinho, sem fazer festa (eu aguardava uma amiga para ir ao bar torcer contra eles) a um garçom do elegante bairro de Las Cañitas que começou a sacanear os clientes brasileiros do restaurante quando a Holanda virou o jogo na mesma Copa.

Mas no fundo do coração eu sabia que em algum momento iria torcer por aquela camisa azul, que ganhei de presente de um argentino, um mês antes do Mundial. Em 2014, eu bati na trave e só torci pela Alemanha, mesmo após o 7×1, por causa do irritante “Brasil, decime que se siente”.

Na primeira Copa que assisti, em 1978, a Argentina era o adversário natural a ser combatido. A começar porque “conseguiu” vencer o Peru por 6 a 0, placar necessário para eliminar o Brasil e avançar à final.

Mas desde a Copa América de 2015, não dava mais para ficar do outro lado. Não apenas porque a Argentina é o meu segundo país predileto (sem trocadilhos), mas porque Messi merecia ser campeão pelo seu povo. Em 2010, mesmo torcendo contra, eu já defendia o maior craque da atualidade, quando os conterrâneos cobravam sua falta de paixão pelo time nacional. Uma cobrança absurda para um garoto de 23 anos que tinha no banco de reservas como treinador ninguém menos do que Maradona.

No último domingo, 26 de junho, a cena de Messi chorando ao desperdiçar a cobrança de  penalidade máxima e, logo depois, o título. O camisa 10 parecia o menino pobre rejeitado pelo seu país, como bem mostrou o site La Garganta Poderosa, editado por líderes comunitários, após a goleada sobre os Estados Unidos.

Para o bem e para o mal, os argentinos têm um nacionalismo muito mais agudo do que o brasileiro. Queimar a bandeira nacional ou vestir a camisa de uma outra seleção parecem improváveis para uma boa parte da população. E Se David Luiz e Thiago Silva choraram um choro que parecia um choro assustado nos estádios brasileiros durante a Copa de 2014, um argentino médio é  capaz de passar dois anos enaltecendo o fato de que Mascherano ia em todas as bolas como se fosse a batalha pela sua vida.

Independente de qual é a postura mais desejável, Zico e Sócrates nunca chegaram a ser de fato desprezados por não terem sido campeões mundiais durante a época do “jogo bonito”.  Messi, chorando, engasgando, afinal ganhou a possibilidade de se redimir ao anunciar sua intenção de nunca mais jogar com a camisa argentina.

Se é uma dramatização “discepoleana” ou uma declaração definitiva, ainda está cedo para avaliar. Mas torço para que Messi e a Argentina façam as pazes e conquistem o Mundial de 2018. Por Messi.