Ivana Chastinet, para além dos seios

Gilson Jorge

Em um início de noite,  no começo de 2011, Ivana Chastinet , amiga e colaboradora da breve experiência impressa de O Cronista, em 2007, esbarra-se em mim, no Largo do Campo Grande. Um abraço apertado, após dois anos sem contato presencial, e logo ergue a mão esquerda para me mostrar um envelope de plástico branco. Acabara de sair de uma clínica com o diagnóstico de câncer de mama. O astral lá em cima, fala que não está derrotada.

Meses depois, mastectomia feita, a conversa em uma mesa de bar com o amigo Adriano Big tornaria-se uma das bases para a filmagem do documentário “Para além dos seios”, que ficou três meses em cartaz no Circuito Sala de Arte e volta para uma “saideira” no dia 1º de julho, na Sala Walter da Silveira, às 17h e às 19h (R$ 10, a meia).

O filme enfoca pessoas soteropolitanas, alguns transgêneros, inclusive, que têm de lidar com a interferência social  sobre as suas existências: o assédio, a discriminação e o controle sobre o que pode ou não pode ser feito em cada corpo. Um tema sob encomenda para um país à beira de virar uma república fundamentalista.

Cinco anos depois do encontro no Campo Grande, Ivana e eu marcamos uma conversa sobre o filme no centro de Salvador, dessa vez ainda com o sol. “Em junho, a luz das 16h é perfeita”, me diz a especialista em artes cênicas que dá dicas de como usar o ambiente para tirar uma foto com o celular.

A primeira pergunta que me faço, desde que soube do filme, é como Ivana lida com a exposição do corpo no documentário. E a resposta vem em forma de militância. “Ou o câncer me matava ou eu matava o câncer”. Vencida a batalha, a atriz e diretora teatral decidiu que precisava fazer alguma coisa, não apenas por si, mas contra os discursos acusadores da direita que ameaça os direitos dos transgêneros, e das mulheres que se deprimem com a perda de uma parte do corpo como moeda de troca para continuar vivas.

Ivana sabe que seus seios eram, em suas próprias palavras, “desejáveis”, e sente que agora parte da sociedade quase não a reconhece como uma mulher.  Por sugestão de Adriano Big, caminhou lentamente seminua, durante a filmagem,  entre a Ladeira de São Bento e o Rosário, observando as reações, sob a retaguarda da equipe de produção.

É uma pessoa de abraçar ideias e causas. Com a mesma prontidão com que se dispôs a assinar gratuitamente uma coluna de um jornal alternativo, alista-se em campanhas em prol dos moradores do centro, participa de um documentário que abarca também a existências de mulheres vítimas de estupro e de transgêneros com a sua luta por visibilidade e reconhecimento social.

“Se o filme fosse feito daqui a 10 anos, ainda seria atual. Nesses período de golpe, em que estamos vivendo, há um retrocesso nessas questões de gênero e sexualidade”.

Outro ponto que o filme aborda é a transformação da mulher em alvo de violência, inclusive doméstica, desde as primeiras transformações no corpo. “Quando as mamas começam a desabrochar, percebe-se logo que os homens não olham nos olhos”.

Ivana sublinha que além de sofrer a perseguição de parentes, vizinhos, amigos e transeuntes desde cedo, a mulher  é forçada a esconder o corpo . “Na mesma faixa-etária, enquanto os meninos estão sem camisa, obrigam a menina a usar roupas comportadas”. Ivana não gosta da expressão “Cultura do estupro”, mas ressalta que há uma conivência histórica dos abusos perpetrados contra as mulheres, “desde a escravidão”.