Nadja Vladi, do Psol, anuncia “a hora” da PartidA: 30.07.2016

Gilson Jorge

Na sexta-feira, 1º de julho  de 2016,  a jornalista e professora Nadja Vladi, filiada ao Psol, recebeu um convite para conversar com O Cronista sobre o empoderamento das mulheres na política. No intervalo entre esse contato e o encontro, que ocorreria na segunda-feira subsequente,  a mídia noticiava que a ex-modelo Luiza Brunet foi espancada pelo marido e, em Salvador, a cantora Aiace Felix teve seu rosto brutalmente atingido por um taxista que havia assediado a  irmã da artista.  Dois exemplos da cotidiana violência de gênero,  que se somam a uma pauta política cada vez mais ameaçadora ao controle que as mulheres têm sobre seus próprios corpos. Questões como o direito reprodutivo, por exemplo, estão sendo tratadas em Brasília por uma maioria de homens.  Mas como fazer com que mais mulheres se engajem na política e assumam o protagonismo nas casas legislativas?

No próximo dia 30 de julho, Vladi e um grupo de feministas vão discutir na Faculdade de Economia da Ufba, Praça da Piedade, estratégias para apoiar candidaturas de mulheres que se comprometam com bandeiras como a descriminalização do aborto e o casamento igualitário, empunhadas pela PartidA, movimento impulsionado desde 2015 pela filósofa Marcia Tiburi e presente em algumas capitais do país, como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Palmas e Goiânia. Em Salvador, por enquanto há apenas 12 mulheres no grupo, que se reúne semanalmente.

“A ideia é que você ocupe os espaços políticos e partidários com mulheres feministas. A participação feminina é hoje muito pequena, mesmo com a cota.” Em 2014, foram eleitas 51 deputadas, o que representa 10% das vagas na Câmara Federal. No senado, há 12 mulheres, 15% da casa.  A Assembleia Legislativa da Bahia tem seis deputadas, diante de 57 homens. Salvador tem cinco vereadoras, de um total de 43 edis.

No plano nacional, uma das batalhas feministas urgentes é o Estatuto do Nascituro, em tramitação na Câmara, que prevê a probição de abortos mesmo em casos de estupro. “É um absurdo. Você é violentada e é obrigada a ter um filho do seu estuprador. A mulher pode decidir por isso, mas o Estado deve lhe dar o direito de fazer o aborto legalmente.”

A PartidA prega que a mulher tenha o poder de decidir sobre o seu corpo, e para que isso passe a ser possível é necessário aumentar a participação feminina na política.  “Você tinha um Congresso mais progressista antes de 2014.  Mesmo as deputadas de partidos de direita tinham uma preocupação mais feminista, com as causas das mulheres.”

A subrepresentação feminina é gritante, com dados constrangedores para um país que sonhe ser civilizado. O governo interino de Michel Temer tomou posse sem ter sequer uma mulher no ministério (assim como nenhum negro). O chamado Partido da Mulher Brasileira (PMB) tem apenas um mandato na Câmara dos Deputados, e que é ocupado por Wellinton Prado, de Minas Gerais.

As integrantes da PartidA estão promovendo eventos com mulheres, tentando convencê-las da importância da participação política, para que nos três poderes legislativos (municipal, estadual e federal) sejam votados assuntos do interesse feminino. Por lei, os partidos são obrigados a apresentar pelo menos 30% de mulheres entre os candidatos a cargos proporcionais: vereadores e deputados estaduais e federais. Mas poucas mulheres são eleitas em um sistema político que beneficia os candidatos ligados ao capital, quase sempre homens, brancos e ricos.

Em sua primeira eleição, a PartidA está tentando viabilizar apoios para que mais mulheres e que pelo menos mais uma feminista seja eleita. Esse vai ser um dos focos da conversa marcada para 30 de julho, das 14h às 17h. “Não é um trabalho fácil. É complexo, demorado, mas está começando a ser feito.”

Para as próximas eleições municipais, não há grandes expectativas. A PartidA vai discutir que nomes vai apoiar para a Câmara de Vereadores, mas não espera uma mudança significativa na composição da casa em 2017.  O objetivo é estimular que novos núcleos de mulheres se engajem na discussão, em diferentes pontos da cidade, para uma maior participação no futuro.

Caso seja eleita uma representante do grupo agora em outubro, deve-se estabelecer um acompanhamento do mandato por parte das integrantes do movimento. “Não é uma coisa de eleger e deixar lá, temos que acompanhar. Você precisa saber se as questões que importam para as mulheres estão sendo pensadas.”

Das 12 soteropolitanas que se juntaram à PartidA apenas duas são negras. E o movimento vai ter que lidar com as críticas de que o feminismo dos partidos de esquerda é muito orientado para a realidade de mulheres brancas de classe média. “Estamos atentas a  isso. O ideal é que a candidatura seja de uma mulher negra.”

Vladi admite ter socialmente “muitos privilégios” por ser uma mulher branca, de classe média e diz querer trazer mulheres negras para o grupo para que haja um trabalho conjunto.

À luz de estudos acadêmicos feitos por feministas como a estadunidense Angela Davis, que na década de 1960 participou do movimento dos Panteras Negras na Califórnia, Vladi destaca a objetificação sexual, por exemplo, como uma questão que afeta muito mais as mulheres negras. “Desde a escravidão, a negra é vista como alguém que vai dar satisfação sexual ao patrão. E isso acontece cotidianamente ainda.” Assim como a violência doméstica e a desigualdade sócioeconômica.

Não obstante, a divulgação das fotos de Luiza Brunet com o rosto marcado pelas agressões sofridas do marido serviram, em sua opinião, para mostrar que mesmo mulheres brancas, ricas e famosas também estão sujeitas à violência doméstica. “Essas mulheres vão menos à delegacia e foi muito importante Luiza Brunet ter feito aquilo (denunciar e divulgar).

Assim como a decisão da cantora Aiace, do grupo Sertanília, que expôs no Facebook a agressão que sofreu de  um taxista quando voltava para casa após uma apresentação no Rio Vermelho.  “A mulher precisa ter coragem de denunciar. Você ajuda o agressor quando não faz a denúncia.” Antônio Ricardo Rodrigues Luz, apontado pela cantora como autor das agressões, foi reconhecido e detido. Ele deve responder por tentativa de homicídio.

Mulheres interessadas em discutir o feminismo na política podem encontrar mais informações na página da PartidA  BA no Facebook.