Julia, a psicóloga baiana que cuida de adolescentes em busca de asilo na Suécia

Gilson Jorge

Aquele menino não deveria sorrir tanto, o tempo todo. Como pode ser que um garoto de 15 anos, sem família ou amigos em um país estranho consiga se divertir o dia inteiro, durante dois meses?  A resposta veio durante uma conversa corriqueira com a psicóloga baiana Julia Lopes Ramos, que trabalha em uma das inúmeras casas de acolhimento a crianças e adolescentes que buscam asilo na Suécia.

Em meio a um papo banal, o jovem começou a dizer que durante a travessia do Mar Mediterrâneo uma mulher grávida que viajava no mesmo barco caiu na água. O adolescente esticou a mão para tentar socorrê-la, e depois implorou ao responsável pela embarcação que voltasse para ajudá-la. Sem sucesso. Julia, que em três anos cuidou de mais de 150 pequenos imigrantes, teve que conter as lágrimas ao ouvir o relato e continuar o seu trabalho. “Ele contou que viu o rosto da mulher lentamente afundando…e ela tentando alcançar a mão dele.”

A Suécia é, historicamente, um país acolhedor, cuja população sempre se orgulhou de receber vítimas de guerras, fome e ditaduras. Foi assim durante os anos 1970, quando chegaram ao país cerca de 50 mil chilenos, fugidos do regime do general Augusto Pinochet. Foi assim durante a Guerra da Iugoslávia, na década de 1990. Zlatan Ibrahimović, craque sueco, é filho de imigrantes bósnios e nasceu em Malmo uma década antes do conflito. Apenas a Alemanha recebe mais estrangeiros do que a Suécia, em números absolutos.  Em termos relativos, o país nórdico fica em primeiro lugar.

Julia, que fazia mestrado em Lisboa, aproveitou um convênio com a Universidade de Gotemburgo, para passar três meses estudando ali. Acabou ficando, aprendeu o idioma e, um mês depois de concluir o curso de sueco,  conseguiu o trabalho. Muitos estrangeiros são contratados pelo governo para ajudar  no acolhimento aos jovens, especialmente profissionais do Irã, Afeganistão, Somália e Líbano, países que enviam mais candidatos a refugiados. A proximidade cultural facilita o entendimento. Em seu grupo, a baiana é a única oriunda da América do Sul.

Cerca de 85% dos que buscam asilo na Suécia são do sexo masculino. Considerados mais fortes e aptos a conseguir trabalho, os meninos viajam com o dinheiro que os pais economizaram e, uma vez instalados, levam os parentes, sob o visto de reunião familiar. O risco de  exploração sexual durante a jornada, que pode levar meses, é outro fator que inibe a ida de meninas.

Segunda maior cidade sueca, Gotemburgo tem dezenas de casas de acolhimento, com capacidade que varia de oito a 40 adolescentes. Pelas leis do país, garotos que se declaram menores de 18 anos e chegam sem a companhia de um responsável legal ganham uma melhor estrutura de acolhimento.

Desde o ano passado, com o agravamento da crise na Síria, a chegada de jovens ao país aumentou tanto que as prefeituras tiveram que recorrer a casas de acolhimento privadas. Uma alternativa que já existia, mas que passou por uma acelerada expansão em 2015 para dar conta da demanda. Em uma dessas casas terceirizadas, preparadas às pressas, uma funcionária foi morta a facadas em um incidente entre jovens.

Muitos desses garotos nasceram em um contexto  de guerra e nunca conheceram a paz. “Costumamos dizer que são adolescentes normais como quaisquer outros, porém em uma situação anormal”. O controle nas casas de acolhimento normalmente é rígido. Facas, lâminas e objetos pontiagudos são mantidos em gavetas trancadas. E duas vezes por dia há reuniões para avaliar o clima entre os jovens e o risco de conflitos.

Mas o clima de hospitalidade está mudando na Suécia e os jovens talvez passem a encarar novos conflitos depois de receberem a autorização para moradia, um processo que demorava poucos meses, mas agora pode levar mais de um ano em função da procura.

A chegada de cerca de 190 mil estrangeiros  no ano passado provocou uma forte reação contrária entre os suecos conservadores. Alimentada por uma queda na qualidade dos serviços públicos, mendicância e a exploração midiática das fraudes no sistema de busca de asilo. Em um país em que os ônibus não têm catracas e ainda assim todo mundo paga a passagem, sempre que se descobre uma violação no sistema de imigração o assunto é discutido exaustivamente nos meios de comunicação.

O Sverigedemokraterna (SD), partido com raízes no neonazismo, tornou-se a terceira força política nacional e recebeu 13% dos votos nas eleições de 2014. Uma pesquisa feita após os atentados em Paris, em novembro de 2015, mostrou que o SD teria recebido naquele momento 17,4%.

 

Julia fez seu depoimento via email