O melhor legado da Olimpíada seria um vexame político

Nesta sexta, 8 de julho, completam-se dois anos do 7×1. O sonho de ganhar a Copa do Mundo em casa caía junto com qualquer resquício de orgulho futebolístico e com o plano de aparecer perante o mundo como o país pujante, que organizava os dois maiores eventos esportivos do planeta em um prazo de dois anos.

Mas a grande derrota no Mineirão foi apenas um em uma série de eventos que levaram a confiança no Brasil para a lama. O inacreditável roteiro da novela política na qual o país se arrasta desde a reeleição de Dilma Rousseff, em outubro de 2014, faz a maior economia da América Latina chegar às portas dos Jogos Olímpicos em frangalhos.

Não faz a menor diferença se o desacreditado futebol vai conseguir o inédito ouro ou se a bandeira nacional vai estar entre as dez primeiras no quadro de medalhas, como foi planejado quando o Rio venceu a batalha pela indicação no Comitê Olímpico Internacional.

A manobra anunciada nesta quinta, 7, por Eduardo Cunha, que renunciou à presidência da Câmara de Deputados para barganhar a manutenção do mandato mostra que precisamos sentir vergonha. Muita vergonha. Não apenas o constrangimento de perder uma partida de futebol de forma humilhante jogando em casa. Mas a compreensão de que estamos aceitando o inaceitável.

Enquanto Cunha aparecia tentando chorar em frente às câmeras de TV, “a Comissão Especial da Câmara dos Deputados que analisa o PL 4567/16 aprovava por 22 votos parecer que tira da Petrobrás a exclusividade na operação do Pré-Sal e acaba com a garantia que a empresa tem de participação mínima de 30% nos processos licitatórios para exploração dessas reservas”, postou em sua página no Facebook o deputado Enio Verri (PT-PR).

Projetos que representam perda dos direitos dos trabalhadores estão indo a votação com uma urgência suspeitíssima, sob o comnado de um governo interino e que deveria agir como tal, até o desfecho do processo de impeachment. Como se os cinco títulos mundiais do Brasil pudessem ser entregues a outro país depois de uma pelada em um campo de várzea.

As audiências da comissão do impeachment deixaram claro, mais de uma vez, que a presidente Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade que justifique a perda do mandato. No entanto, o governo usurpador de Michel Temer sai correndo para comemorar o gol de mão, sem sequer olhar para o bandeirinha, com a cumplicidade da arbitragem e dos jornalistas que cobrem a partida.

Um jogo de cartas marcadas que só causa vergonha quando se escala um juiz de fora ou um correspondente estrangeiro. A entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à Al Jazeera mostrou a impossibilidade de se defender o golpe diante de uma mente que não esteja condicionada e que não acredita que não houve pênalti, por mais vezes que se dê replay.

O segundo tempo da votação do impeachment no Senado pode ocorrer durante os Jogos Olímpicos. Mas temos, do outro lado, a torcida dos que sabem que se trata de um golpe subindo o vestiário para a etapa complementar cabisbaixa, como quem levou 5×0 nos 45 minutos iniciais e não acredita na virada.

Por isso, a importância de que o mundo acompanhe o julgamento de Dilma. Michel Temer precisa ser exposto ao vexame internacional por estar conduzindo o país depois de um golpe. Ele pode ganhar, mas o planeta inteiro precisa saber que foi roubado.