Empresários da CNI têm mentalidade escravista e Brasil corre risco de retrocesso totalitário”, diz Fábio Nogueira

No mesmo dia em que o sociólogo Fábio Nogueira lançava o seu livro sobre Clóvis Moura, um jornalista militante do comunismo e dos direitos dos negros, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) solicitava ao presidente interino Michel Temer a elevação da jornada de trabalho, que é de 44 horas semanais. Primeiro, divulgou-se que o objetivo era aumentar para 80 horas, depois para 60, e finalmente foi dito que não aumentar-se-ia, como provavelmente escreveria Temer, após a reação que se esboçou na sociedade, como se viu já na manhã do sábado seguinte.

Sobre a proposta dos empresários de aumentar a jornada de trabalho, Nogueira diz que se não fosse a luta dos negros não teria sido assinada a Lei Áurea, que aboliu a escravidão. E que somente em função dos movimentos sociais conseguimos ter um “padrão civilizado de trabalho”.

“Há uma mentalidade escravocrata, que dispõe das vidas das pessoas”. Nogueira não acha que essa proposta da CNI  seja algo a ser levado a sério, mas que “diante do cenário em que se tem a suspensão da ordem democrática, não é de se assustar que a CNI apresente uma proposta dessas,” o sociólogo considera que essa notícia mostra que o Brasil corre o risco de um retrocesso totalitário.

“Esse governo não representa as vozes brasileiras, o que tem de conflito na sociedade, então pode apresentar projetos que passam ao largo das vontades, dos limites, e isso é muito grave”.

Nogueira afirma que de alguma forma essa lógica se reproduz em Salvador. “A forma como o PDDU foi aprovado, com truculência, com agressão. O vereador Hilton Coelho foi agredido por dois vereadores da base de ACM Neto”. E diz que com muita luta foi possível retirar do Plano Municipal de Educação o artigo 9º, que “previa a privatização do ensino municipal”. Uma mostra de que as conquistas sociais obtidas desde a Constituição de 1988 estão sendo suprimidas por estes governos, avalia.

Pré-candidato à Prefeitura de Salvador, pelo Psol, Nogueira acredita que com a população reagindo é possível frear a agenda golpista. Como aconteceu quando Temer nomeou para a presidência da Funai Sergio Roberto Peternelli, um general aposentado que defende a ditadura militar iniciada em 1964. Com a pressão, ele caiu.

Nogueira considera “importante” ter uma candidatura negra à prefeitura de uma cidade que tem cerca de 80% de negros. O único que chegou ao poder na capital foi Edvaldo Brito, com mandato tampão de seis meses entre 1978 e 1979, indicado por Antonio Carlos Magalhães durante a ditadura militar.

“Não consigo entender como, em uma cidade com esse perfil demográfico, não tenhamos uma representação política negra consolidada”. O pré-candidato, que é pesquisador do racismo, afirma que os poucos negros no poder exercem seus mandatos “com muita dificuldade”.

Nogueira acha que não dá para dissociar o atual modelo de desenvolvimento urbano, que inclui a aprovação do PDDU, do processo de gentrificação que acontece no centro da cidade. Gentrificação é uma palavra de origem na língua inglesa que designa o processo de revitalização de áreas degradadas com o objetivo de atrair moradores de classe média e classe média alta, normalmente expulsando os moradores antigos que não conseguem se manter economicamente no local.

“Com a reforma da Lapa, você teve uma expulsão dos ambulantes. Há uma tentativa sistemática de remover os ambulantes do centro. Se a gente for analisar historicamente, quem estava no comércio de rua, nas feiras era a população negra”.

Nogueira afirma que é fundamental fazer obras na cidade até para resgatar a autoestima dos soteropolitanos, mas diz que essas obras seguem uma lógica de segregação sócio-racial.  “Ao mesmo tempo em que se revitaliza, você exclui a população, em especial a população negra e isso atende a uma pequena minoria de empresários”.

Sobre o livro lançado na sexta, Clóvis Moura (1925-2003) foi um jornalista, sociólogo e historiador que escreveu o livro Rebeliões da Senzala.  Nogueira leu Moura pela primeira vez na graduação e, durante a  pesquisa que fez para o mestrado sobre intelectuais negros foi investigar mais sobre ele. “Eu buscava alguém que também militasse na esquerda e Clóvis Moura caiu como uma luva”.

Moura escreveu mais de 20 livros. Em 1940, morando em Juazeiro (BA), ele já começava a escrever sobre o fenômeno da rebalião escrava. Desenvolveu uma tese que se contrapunha a um certo pensamento marxista que enxergava os negros como mercadoria e não como atores no processo, que vigorou até aos anos 1980. “Moura se antecipou em 40 anos e trouxe uma contribuição enorme para o movimento negro brasileiro”.

Para o sociólogo do Psol, o personagem do livro Clóvis Moura, Trajetória Intelectual, Práxis e Resistência Negra é um “autor profícuo, de pensamento complexo e uma interpretação muito particular do marxismo e que recebeu por parte da academia o silêncio”.