Professora da Uneb lança livro “Nada me consola”, sobre as carreiras de Chico e Caetano

Enquanto  a juventude da classe operária no ABC Paulista começava a curtir as bandas de rock nacional, que se formaram nos últimos anos da ditadura militar, década de 1980, o que divertia Priscila Correa , então com 12 anos, era gravar em fitas cassete a voz de Chico Buarque. Porque era mansa, doce. Às vezes, confundia com João Gilberto, que também era gravado em registros que mantém consigo até hoje.

Depois da delicadeza, Priscila começou a perceber as letras, até que se encantou definitivamente ao ouvir a versão que seu ídolo fez de “Gente Humilde”, canção composta por Vinícius de Moraes e Garoto, com colaboração do próprio Chico. A música fala de pessoas simples com cadeiras na calçada, do trem, do clima de subúrbio, uma realidade muito próxima à de sua cidade natal, Mauá (SP).

Estava estabelecido o vínculo que possivelmente acompanhará “até o fim” a carreira da historiadora, professora da Uneb, que está lançando o livro Nada me consola, em que compara mais de quatro décadas das trajetórias de Chico Buarque e Caetano Veloso. O trabalho é resultado de uma pesquisa de cinco anos, para sua tese de doutorado, em que ela consultou jornais, revistas e inúmeras comunidades do finado Orkut.

O livro, com apresentação do cineasta e músico Sergio Ricardo, e prefácio Tiago de Oliveira Pinto, professor do Instituto de Musicologia da Universidade de Weimar, mostra como a inverídica rivalidade enre os dois, alimentada pela crítica e por parte do público, acabou se tornando um instrumento de marketing para promover a aproximação dos dois no palco e na televisão. Além de demonstrar a liderança política que cada um exerce, a seu modo e a análise técnica de canções. “Embora seja uma tese, tem uma linguagem direcionada ao grande público”.

Antes de começar a empreitada, Priscila fez um levantamento e descobriu mais de 200 trabalhos acadêmicos com Chico Buarque  no título. “Isso me desanimou profundamente: era a mulher e Chico, a política e Chico…” Então foi preciso fazer algo distinto que respeitasse o sonho da menina, que entrou para a faculdade de história influenciada pela obra do compositor e, que já na graduação tinha feito um trabalho sobre a canção “Cotidiano”.

Veio então a ideia de comparar  sua carreira com a de Caetano. “Eu notei que havia um confronto constante entre os dois , na opinião pública, na bibliografia, nas notícias de jornais, sempre se discutia quem era o melhor…”. A tese passou a ser o entendimento desse embate, a partir de um artigo assinado por José Miguel Wisnik no início da década de 1970, sugerindo que esse confronto deveria ser observado de perto.

Ao longo dos cinco anos de pesquisa, a historiadora identificou interconexões em 60 canções de cada um dos compositores. Cotidiano e cultura são as bases da obra de ambos os artistas, com frequentes ligações entre si ao longo de 40 anos de história do Brasil, desde os primeiros anos da ditadura militar até 2006, quando Chico lançou o CD Carioca e Caetano trouxe “Cê”.

Naturalmente, Você não Entende Nada (Caetano) e Cotidiano (Chico) ocupam um lugar central no livro. A gravação que foi ao ar em 1986, no seriado Chico & Caetano exibido pela Rede Globo, fundiu definitivamente as duas obras e mesmo em karaokês é impossível cantar uma sem lembrar da outra.

Mas há casamentos menos óbvios, como o uso de elementos de A Banda (1966), a marchinha, por exemplo, na composição de Alegria, Alegria (1967), primeiro grande sucesso de Caetano, numa época em que havia uma política de valorização de manifestações culturais brasileiras. “O próprio Caetano admitiu essa influência”.

Ou a adoção de uma postura mais cênica por parte de Chico no palco, após o exílio de Caetano e Gil em Londres (1969-1972), época em que a censura impunha menos fala e o corpo passou  a ser mais politico, à moda tropicalista. Na volta da Inglaterra, Caetano recebia Chico no palco do Teatro Castro Alves para o show que se tornaria embrião do futuro programa de TV.

“É nessa gravação (de 1972) que a gente pode verificar os pontos de divergência (musical) e de encontro entre eles”.  Encontros temáticos, de sonoridade e de persona. “O contexto social brasileiro acabou motivando Chico para uma postura performática, similar à de Caetano, que naquele momento era uma linguagem mais apropriada”. Outros artistas criticavam as performances tropicalistas por não vislumbrarem como elas tinham um efeito contestador.  E nos anos 70, o Chico suave de “Carolina” adota o tom de voz mais agressivo nos palcos, emprestado de Caetano.

Priscila aponta o show de 1972 como o momento em que ficam cristalinos os dois vieses de interpretação.  Como Caetano parte da cultura rumo à cotidianidade em seu trabalho e Chico faz, a seu ver, o percurso contrário, partindo de um cotidiano mais opressivo, a opressão do trabalho, a repetição. “Ele encontra em elementos da cultura uma possibilidade de escape dessa opressão do cotidiano”.

Aleḿ de municiar a pesquisa com as intrigas virtuais sobre os dois artistas, o Orkut serviu como manancial de arquivos. Vídeos raros que não estavam no Youtube e cuja consulta através da TV seria onerosa foram disponibilizados gratuitamente por internautas que souberam da pesquisa.

As gravuras e a capa do livro foram feitas pela irmã de Priscila, a artista plástica Vivi Correa, que reproduziu em xilogravuras momentos das carreiras de Chico e Caetano descritos pela autora. E cada livro vem com uma xilogravura extra como brinde.

“Nada me consola” será lançado em São Paulo neste sábado, no Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios, Mooca, às 17h.

O lançamento em Salvador acontece 6 de agosto, na livraria Boto Cor-de-Rosa, Barra.