Daniela, a mãe que sugeriu à Ufba a exibição de filmes em sessões para autistas

É toda uma produção. As luzes têm que estar na medida certa para nem causar pânico nem dispersar a atenção, o som tem que ser alto o suficiente para não ser abafado pelas conversas e comentários que vão ocorrer durante a projeção e vai ser preciso controlar o acesso nas muitas vezes que os espectadores vão querer entrar e sair da sala de cinema.  E é assim que será exibido neste sábado, 16, em duas sessões, às 9h e às 11h, o filme Divertida Mente, segunda data do projeto de exibição de filmes para pessoas autistas na Sala de Arte da Ufba. O programa foi inaugurado em 2 de abril, com Minions, por sugestão de uma professora de inglês, mãe de um garoto autista de 14 anos.

Cinéfila, Daniela Porto vibrou ao ler no Facebook, em dezembro de 2015, sobre uma sessão especial de cinema no Rio de Janeiro e pensou que adoararia reproduzi-la em Salvador. Com o incentivo de uma amiga e o apoio do pai, Lauro Porto, professor da Faculdade de Medicina da Ufba, conseguiu agenda no cinema da universidade, onde ele mesmo, também fã da sétima arte, já tinha exibido filmes para seus alunos.

A sessão de abril teve mais gente do que o previsto e possivelmente o sucesso se repita agora. “Muitos pais e mães se sentem constrangidos em levar filhos autistas ao cinema porque as outras pessoas se incomodam com a conversa” Daniela, que não se preocupa muito com as reações das pessoas, acreditou que uma sessão específica para esse público ajudaria a socialização dos portadores do Transtorno do Espectro Autista (TEA), que muitas vezes impede a pessoa de lidar com o mundo e fazer tarefas simples, como amarrar os cadarços ou tomar banho sozinho.

É uma condição humana (Daniela não enxerga como doença) que não tem cura e cujas causas são desconhecidas pela ciência. Há uma série de fatores para os quais é necessário prestar atenção nos primeiros dois anos de vida. Se o bebê não faz contato com os olhos até os três meses, se não sorri até os seis, se não procura por quem chama seu nome até um ano e nem pronuncia uma frase inteligível até um ano e meio, segundo especialistas ouvidos pela revista Cláudia.

Embora não haja uma clara vinculação genética com o autismo, Daniela ouviu dos médicos que se tivesse um outro filho ele teria 20% de chances de nascer com TEA. O filho mais velho da professora, de 15 anos, não tem autismo e é ele que se encarrega de passar trailers de filmes para o irmão e avaliar sua reação à história. Os filmes não podem ser muito longos, para não incentivar a dispersão.

Por questões acadêmicas, já que a projeção acontece nas dependências da Ufba, a universidade demandou que junto com a exibição do filme houvesse palestras sobre o tema. Daniela pontuou, então, que não seriam especialistas a falar, mas sim parentes e autistas funcionais que contariam sua experiência. Neste sábado, falam Daniela, e um jovem portador de autismo funcional.

Cada autista ou criança poderá entrar com apenas um acompanhante. As palestras  acontecerão em uma das salas do Pavilhão de Aulas do Canela, durante a exibição do filme, e são destinadas a profissionais que atuam na área e querem entender a experiência dos autistas e dos pais. “O depoimento de um autista funcional é uma chance de entender coisas que meu filho, por exemplo, não expressa”.