“Precisamos de uma lei contra a homofobia. Não queremos privilégios, só direitos iguais”, diz Lelo Filho

 

 

Gilson Jorge

A notícia da morte de Leonardo Moura, um conhecido e querido produtor cultural, chocou particularmente o ator Lelo Filho, um dos criadores da Companhia Baiana de Patifaria, responsável pelo espetáculo “A Bofetada”. Poucos dias antes, Leonardo havia comparecido ao Teatro Jorge Amado e tirado fotos com o elenco. Foi uma morte que, além da tragédia em si, trouxe de volta a lembrança do assassinato em 1994 do ator Moacir Moreno, sócio de Lelo na empreitada que se tornaria o maior sucesso de público do teatro baiano.

“Em cada acontecimento desses, demora para a ficha cair, até para entender como nos dias atuais, em pleno século 21, a gente ainda está precisando se manifestar sobre assuntos como esse”. A manifestação foi convocada pelas redes sociais após a divulgação da notícia de que Moura havia sido atacado após sair de uma boate gay.

“A gente tem na companhia o histórico de Moreno, uma ferida que nunca cicatriza e é bom que não cicatrize para que essa nossa luta não acabe.  Estar aqui é também estar representando, de certa forma, Moacir Moreno, morto de forma violenta e covarde”.

Lelo acha “importante” que se consiga reunir pessoas para tratar desses temas, mesmo lamentando que isso seja necessário.  “Precisamos de uma lei. Não queremos privilégios, queremos direitos iguais. A criminalização da homofobia, da transfobia, nada mais é do que a Lei Maria da Penha, que existe hoje para defender as mulheres da violência”.

O ator ressalta que se não houver punição, a luta será vã. Uma tipificação de crime que  acene não ser aceitável agredir uma pessoa pela sua orientação sexual, assim como a lei já trata a violência dirigida contra as mulheres e contra os negros. Não que a lei em si vá mudar a sociedade.

Poucas horas antes da passeata, a polícia anunciou a versão apresentada por moradores, de que o rapaz teria caído sozinho da balaustrada. Foi o bastante para que algumas pessoas que leram essa notícia comentarem com certo prazer um “tá vendo ai? os gays querem privilégios”.

Pessoas que foram à manifestação sinalizavam dúvidas quanto aos recentes eventos de violência no Rio Vermelho, especialmente depois que um rapaz acusado de agressão na mesma noite em que Leonardo teve os ferimentos que o levariam à morte horas depois.

Mas havia dúvidas também quanto à versão apresentada pela polícia. Dúvida externada pela familia de Leonardo através da mídia. Desde a morte de Moreno, vítima de crime de ódio e morto dentro de sua casa, as estatísticas de violência contra homossexuais, negros e mulheres não se alteraram muito.

De acordo com um levantamento do Grupo Gay da Bahia, 318 pessoas foram assassinadas no Brasil em 2015 por causa da homofobia. Com 33 casos, a Bahia aparece em segundo lugar nas estatísticas de ódio contra a população LGBT, atrás apenas de São Paulo.

Tem a violência contra os negros. Entre 1980 e 2011, 20.852 jovens negros, uma taxa três vezes maior do que a de homicídios de jovens brancos, segundo o Mapa da Violência divulgado em 2015.

E tem a violência contra as mulheres. O primeiro episódio violento no Rio Vermelho a desencadear a reação da sociedade recentemente, foi a agressão física sofrida por uma cantora após defender a irmã do assédio de um taxista.

Lelo não acredita que haja uma segmentação das manifestações, com os negros protestando contra a morte de negros, o movimento feminino sozinho reclamando da violência contra a mulher e apenas a população LGBT brigando pelos seus direitos. “Espero que não. Aparentemente, os movimentos agem assim. Mas hoje (sexta, 15) estão todos aqui, todos são vítimas da violência”.