Os subterrâneos da carreira musical de Mardou Monzel

foto: arquivo pessoal

 

Gilson Jorge

A vida às vezes desafina. Quando foi admitida no Instituto de Música da Universidade Católica do Salvador (Ucsal), Mardou Monzel teve que vender alguns instrumentos para bancar o curso, que acabou não concluindo. E na primeira vez que ia tocar com sua banda, em uma jam no Cabula, após um mês de ensaios, não conseguiu se apresentar, pois o bluesman Álvaro Assmar estava no local e se escalou para o palco “Ele nem foi convidado”.

Mas também a música pode oferecer redenção. Aos 16 anos, Mardou namorava no sofá de casa quando uma voz começou a ecoar nos corredores do prédio. Empurrou o corpo do garoto para longe e saiu apressada para saber quem era aquele homem. A resposta não veio soprada pelo vento. Um policial magricela de 40 anos abriu a porta do apartamento ao lado e disse que era um CD de Bob Dylan, que pertencia a seu irmão.

Convenceu o homem a emprestar o disco por uma noite para que ela pudesse gravá-lo antes de viajar. Mas na manhã seguinte o vizinho não estava em casa e ela passou dias sem retirar o CD do discman. “Quem mora comigo sofre, porque quando gosto de um alguém ouço meses sem parar”.

E foi ouvindo o avô materno, um trombonista da banda da polícia militar, que Mardou se encantou com a profissão. O avô fazia festas que varavam a noite, com muita cachaça, dominó e, claro, música. “Ele tocava muito e me colocava para cantar”.

O violão chegou às suas mãos aos 11 anos e, desde que aprendeu, passou a tocar constantemente com avô, sua grande influência. “Ele sabia muito e qualquer música que eu puxasse ele acompanhava”. Uma relação tão próxima que inspirou parte de seu nome artístico, depois de uma quase tragédia. Aos cinco anos, ela correu para receber o velho amigo e professor que chegava em seu Chevrolet Monza. Passou por trás do carro segurando um tatu empalhado de estimação, sem ser vista pelo avô, e acabou atingida pelo automóvel. Ela desmaiou e bateu com o queixo no asfalto. Um susto. Que rendeu o apelido de Monzel.

Mardou veio mais tarde, na adolescência, em um círculo de leitura que a tornou fã de Jack Kerouac e de sua personagem Mardou Fox.

Sempre foi fã de blues, mas o registro de sua voz a empurrou para o country e o bluegrass. No fim de 2014, viu na internet um anúncio de country music no Hot Dougie’s Rendezvous, no Porto da Barra, e apareceu duas vezes para curtir o som. Era um momento muito difícil em sua vida pessoal e Mardou estava meio parada,  depois de quatro tentativas de tocar com uma banda.

Um dos músicos no show da Barra era o banjoista Gigito, que tinha aberto duas apresentações dela no Irish Pub. Após uma conversa com Doug, o dono do bar, Gigito convidou a moça para se aproximar. Desde então, ela toca regularmente às sextas, com sua nova turma, a Muddy Town, e segue tentando montar outras bandas, para outros projetos.

E o avô estava certo em incentivar. Na sexta-feira, dia 22 de julho, após conversar com O Cronista, Mardou e os amigos fizeram uma apresentação de tirar o fôlego do público.