Em quadrinhos, a história de Carolina, a recicladora de papel que virou escritora

Gilson Jorge

 

Imagine uma pessoa que cata lixo reciclável, começa a escrever sobre sobre a sua própria vida nos cadernos que encontra pelas ruas e é catapultada ao sucesso. Suas anotações sobre a vida na favela despertam a ira dos vizinhos, que se sentem expostos. Ela ganha dinheiro e se muda para um bairro de classe média e, então, recebe a proposta de colocar em um outro livro os detalhes de sua nova vida.

Agora pense que isso aconteceu de verdade em São Paulo, em 1960. Naquele ano, a mineira Carolina Maria de Jesus,  então com 46, lançava Quarto de despejo, livro em que relatava as agruras da vida na favela em que foi viver depois de engravidar e de perder o emprego de doméstica na casa de um médico,  que a incentivara a ler em sua biblioteca.

A inspiradora história da mulher altiva, que foi recebida pela elite paulistana  como “escritora exótica” e que conseguiu desagradar, à classe média, aos pobres, direita  e esquerda, chega às livrarias sob forma de quadrinhos, no livro Carolina, de João Pinheiro e Sirlene Barbosa. Uma rica história de vida que volta a ser discutida no momento em que se quer tirar das escolas o debate sobre política e desigualdade social.

Conteúdo não faltava a Carolina, cujo poder de observação da realidade poderia  tranquilamente inspirar o trabalho de cientistas sociais. Mas  para que as experiências da catadora de papel chamassem a atenção do país e fossem traduzidas até para o japonês foi necessária a interferência de alguém do mainstream.  “Houve um processo muito forte de publicidade antes do lançamento do livro”, pontua Pinheiro.

Quando o jornalista Audálio Dantas, da extinta Folha da Noite, teve acesso aos manuscritos de Carolina, começou a publicar trechos em sua coluna. Algo que se repetiria na revista Cruzeiro e em outras publicações.

Um ano antes do lançamento do livro, as histórias de Carolina já vinham sendo publicadas periodicamente “mas já de uma maneira exótica”.  Pinheiro refere-se  ao fato de que o material era anunciado como produção de uma mulher negra e favelada do Canindé, e que o julgamento de seu valor literário partia mais da origem do que do conteúdo propriamente.

Dantas teve acesso aos escritos de Carolina em um lance de sorte. Foi à favela fazer uma reportagem e deu de cara com uma mulher discutindo com os vizinhos e ameaçando colocá-los em seu livro. Perguntou do que se tratava e a escritora viu ali a chance de ter suas histórias publicadas.

Com o sucesso, Carolina passou a ser assediada para assumir o papel de escritora exótica, usando colares e roupas que remetessem à África. Recusou-se. Numa atmosfera pré-golpe militar,  a esquerda se aproximou ao identificar nela uma denúncia contra o capitalismo, mas essa não era exatamente a sua viagem. Suas declarações em favor do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, celebrizado pelo “rouba, mas faz” atiçavam a direita, que se afastou quando ela começou a mencionar a reforma agrária. “Ela tinha essas contradições”, destaca Pinheiro.

“Carolina virou um fetiche, um produto que depois passou a não interessar mais à classe média”, assinala Pinheiro. Mas ela não queria escrever mais diários sobre a pobreza ou sobre a vida de nova classe média. Ela queria escrever outros livros, contos, poemas, e acabou bancando do próprio bolso publicações que fracassaram comercialmente.

“É uma literatura que não tem nada de exótico. Ela escrevia bem”, afirma Sirlene, que enxerga no legado de Carolina uma clara postura feminista, ainda que não declarada. “Ela ressaltou que, mesmo sendo muito culto, seu avô espancava a mulher”.  Por ter saído de casa sem autorização.

Depois de três anos de intensa pesquisa com dificuldades para achar textos originais de uma personagem tão singular da história recente do Brasil, a dupla de escritores reconhece que no futuro seria ainda mais difícil explicar uma pessoa como Carolina a estudantes da Escola sem Partido.

Professora e “freiriana total”,  Sirlene lembra a famosa frase do educador de que todo mundo tem ideologia, basta saber se é inclusiva ou excludente, apesar de enxergar, na prática, professores que desideologizam suas aulas. Não é o seu caso. “O professor não deve doutrinar. Mas no caso da Escola sem Partido eles querem colocar a ideologia deles”, acrescenta Pinheiro.  Se a própria Carolina tinha dificuldades em se definir como esquerda ou direita, não são os professores que vão forjar a filiação ideológica de seus alunos. Mas não dá para explicar a vida de uma catadora de lixo negra que ascende à classe média através da literatura sem discutir desigualdade social, racismo e feminismo. E isso está desenhado no livro em quadrinhos sobre Carolina.

Em Salvador, o livro está disponível na Boto Cor-de-Rosa, na Barra, assim como Burroughs, obra individual de Pinheiro sobre o escritor americano.