Primeira mulher trans a mudar oficialmente de nome e gênero, Luana agora aguarda as próteses mamárias

Gilson Jorge

Luana Martins Dórea, 23 anos, ficou conhecida em 2015 por ter sido a primeira mulher trans da Bahia a ganhar na justiça o direito ao uso de um prenome e do gênero feminino. Foi só o começo da luta para ter a sua identidade. O seu próximo desafio é conseguir na justiça a autorização para que o SUS faça a cirurgia de instalação de prótese mamária. “Eu entrei com uma liminar, mas foi negada”.

A transição para o feminino começou aos 15 anos, quando teve seu primeiro casamento, com um jovem de 18. Longe da repressão familiar começou a tomar hormônios por conta própria.  Há dois anos brigou para incluir o nome, Luana, na carteira do SUS, e, após uma resistência inicial do funcionário público, provou que a lei lhe dava direito desde que o Ministério da Saúde emitiu uma portaria regulamentando o nome social para a população LGBT, em 2013.

Detesta discussões em público, mas sem alterar a voz ou o semblante,  insiste na defesa dos seus direitos. “Eu faço a linha fina”.  A calma não se confunde com falta de iniciativa. Enquanto algumas amigas têm receio de brigar pelo  que a lei lhes garante, Luana foi à Defensoria Pública e após reunir a documentação e procurou a justiça. Também contou com a sorte. Pouco depois que sua história se tornou pública, alguns casos semelhantes tiveram o pedido de uso do gênero feminino negado porque as reclamantes não tinham passado por processo cirúrgico transgenital.

A força para lutar vem de seu histórico familiar. Primogênita de três irmãos, viu a mãe apanhar e ser mantida em cárcere privado  por mais de 10 anos pelo padrasto. Um homem que, depois de ameaçar matar a família inteira, cometeu suicídio.  Além disso, preconceito e disputa de bens entre parentes a levaram a sair de casa cedo e cuidar da própria vida.

Quando foi morar com o primeiro companheiro, ouvia comentários jocosos na rua. Com o passar do tempo, ganhou o respeito dos vizinhos em Valéria, bairro periférico de Salvador, próximo à BR 324. Luana acredita que isso aconteceu porque ela tem um cotidiano discreto, de casa, trabalho.

Já foi da noite. Com a personagem Luanna KeyLook, dançava em boates e fazia performances de Britney Spears. Foi em uma boate que conheceu o atual companheiro, com quem está há dois anos. A família do rapaz demorou a aceitá-la, mas hoje convivem bem. “Dizem que eu tirei ele da balada”.

O namorado passa muito tempo no interior, onde querem abrir um negócio. Luana diz que não tem medo de reações preconceituosas. No São João, percebeu olhares de rapazes da cidade que não eram de paquera. “A gente sente quando tem sarcasmo”. Mas ficou por aí.

Por enquanto, Luana está em compasso de espera. Atua como cabelereira, por conta própria. Não quer tentar um trabalho em um mercado de trabalho discriminatório para ter que se afastar por três meses quando conseguir marcar a cirurgia e acabar se queimando com a empresa.

Acredita em Deus e credita a ele as suas vitórias. Mas não tem paciência para evangélicos que tentam conversar sobre a Bíblia, “Um livro que foi escrito há dois mil anos por homens, sem prova alguma”.  E quando uma cristã a abordou para uma pregação, dizendo que Deus tinha um plano para ela, Luana disse que esse plano já estava sendo realizado.