Uma lição para a esquerda: nas futuras manifestações, mais música e menos blá, blá, blá

Foto: Gil Maciel

 

Os golpistas não vão se abalar, naturalmente, com a presença do povo contra o golpe  na rua. Há muita coisa em jogo nessa ruptura democrática e a cobertura que a grande mídia dispensa aos protestos deixa isso bem claro.  Mas a participação do microtrio, comandado por Ivan Huol, na manifestação do último domingo, 31, do Campo Grande ao Farol da Barra, mostrou claramente que música interessante, intercalada pelos gritos de “Fora, Temer” são infinitamente mais produtivos do que os discursos chatos e inócuos das lideranças que se dispõem a utilizar o microfone.

A esquerda ainda não se deu conta de que, a menos que você tenha a oratória de Lula ou de Michelle Obama, ninguém vai ficar prestando atenção no que se grita desde o alto de um carro de som. Ainda mais que quem está nas ruas mais ou menos já sabe porque está protestando.

Huol e seus companheiros mantiveram amplo controle sobre a atenção de quem acompanhava o carro de perto, cantando clássicos da esquerda, como “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, e divertidas versões de canções consagradas.  Os caras devem ter começado o trabalho assim que o pedido para abertura do processo de Impeachment da presidente Dilma Rousseff foi acatado por Eduardo Cunha, em dezembro de 2015.

O “Xote das Meninas”, de Gonzagão, virou uma música em que as moças adotavam o  vermelho, não queriam mais vestir camisa da seleção e só queriam, só pensavam em protestar. Em vez de “Mila”, “Dilma”. O maior sucesso da Jammil foi usado para dizer que tudo começou a um tempo atrás, na Ilha da Globo, e por aí vai.

A apresentação dos músicos deu um ritmo inédito ao protesto, já que uma boa parte dos manifestantes com mais de 30 anos conhecia as letras dos clássicos e as letras das versões, construídas com lógica e palavras batidas do noticiário político como lava jato e delação eram rapidamente decoradas e repetidas pelo coral ao redor e até por um outro morador do Corredor da Vitória e Ladeira da Barra que aparecia na janela demonstrando simpatia pelo protesto.

Uma manifestação que se não foi a maior, foi uma das mais animadas desse período tenebroso da política nacional. Pena que na chegada ao Farol começou o revezamento do microfone nas mãos de pessoas que acham ter as melhores frases do mundo. Não têm. Os manifestantes só queriam cantar e de vez em quando preencher a pausa entre uma música e outra com o grito de “Fora, Temer” a plenos pulmões.