Livro de Flávio Costa traz mentalidade baiana sem estereótipos em contos sobre personagens da periferia

Foto: Vitor Pamplona

Nascido e criado no bairro de Pernambués, em Salvador, o jornalista Flávio Costa migrou há cinco anos para São Paulo, como alguns outros talentosos repórteres de sua geração com quem mantém vínculos em terras alheias. E, por mais que trabalhe diariamente com o noticiário da grande metrópole, sua atenção está muito voltada para as coisas que são publicadas em sua cidade natal.

Em 5 de fevereiro de 2015, por exemplo,  quando se dedicava  à produção de seu primeiro livro, Caçada russa & outros relatos, aterrorizou-se quando o governador Rui Costa declarou que os policiais militares acusados da chacina no Cabula, gigantesco bairro vizinho a Pernambués, agem “como um artilheiro em frente ao gol”, referindo-se à tomada de decisão em poucos segundos.

O episódio grotesco não entrou em nenhum dos contos, ambientados na capital baiana, mas está absolutamente em linha com a opressão imposta por alguns personagens do livro, gente que utiliza o poder que tem sem levar em conta como um gesto, uma declaração, uma implicância podem arruinar a vida de quem não tem como se defender  e que muitas vezes irrompe em violência.

E o abuso de autoridades é um tema que Flávio acompanhou de perto quando trabalhava como repórter em A Tarde e cobria o poder judiciário. Um clube de homens brancos de classe média alta que estava constantemente em choque com as reportagens de um jovem negro que usava dreadlocks.

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É muito fácil para um sotepolitano de origem pobre se identificar com o universo de “Atlanta” e “Recordações do colégio público”, dois contos em que a experiência de personagens da periferia em idade escolar é sociologia pura. Durante a leitura, imagens da infância, da relação com os colegas, das relações raciais, do autoritarismo, retornam à mente de forma impactante. Gente que ilustraria ótimas histórias e que, de certa forma, está representada em “Caçada”.

Costa descreve de forma pujante, e às vezes melancólica, o acúmulo de rancor quando um inocente é injustamente acusado e que pode explodir em vingança. Mas também mostra uma Salvador bárbara, onde a violência é banal, prescinde da presença do Estado e é adotada de forma exemplar. “Sempre vi a cidade assim. Pernambués tem quatro facções de traficantes”.

Os textos começaram a ser escritos em 2013, quando Costa deixou a  Istoé. “Alguns contos dialogam entre si e contam uma história mental de Salvador”. Os relatos de “Caçada”não trazem um viés de denúncia social, está longe de ser literatura militante. É simplesmente literatura. “Os contos não fazem comentário direto sobre a realidade, eu não acredito nisso. A questão estética vem primeiro”. Costa define o livro como fruto de uma mentalidade baiana.

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Uma das características do livro é a verborragia de alguns personagens, seguindo a tradição soteropolitana de falar pelos cotovelos, como se diz por aqui. Uma verborragia que aparece sempre em quem está narrando a história. “Caçada” está dividido em três blocos: histórias da infância, vida adulta e narrativas políticas, não no sentido partidário, mas de enfrentamento cotidiano.

Apesar do caráter político de personagens que enfrentam o sistema com as armas que têm, Costa nega que a escolha de desvalidos e pobres, tenha sido consciente. Eles estavam ali, na sua  cabeça e à medida em que foram ganhando corpo, surgiram os contextos, as falas.  A estreia de um repórter na ficção e que, como cobra Cláudio Leal, torna-se um caminho sem volta.

 

* O nome do livro é uma homenagem à literatura russa, que conquistou Costa ainda na Faculdade de Comunicação da Ufba, onde leu os livros de Dostoiévski, Maiakovski e outros autores publicados pela Editora 34.  O livro tem apresentação do também jornalista Cláudio Leal, tem 107 páginas, custa R$ 32 e pode ser adquirido no site da  Editora Penalux

* Costa participou de um bate-papo no Rio Vermelho com os jornalistas Vitor Pamplona e Felipe Amorim, que vieram à cidade especialmente para o evento. E a conversa entre os quatro colegas de profissão está aqui resumida.