A frase “meu corpo, minhas regras” também pode ser dita pelos homens

Aos 13 anos, fui a um passeio na Ilha de Itaparica com um grupo de jovens da comunidade evangélica que frequentava. As regras eram rígidas. Solteiros só podiam tocar alguém do sexo oposto no ombro ou na cintura, sem apertar, e, no máximo, abraço e beijinho no rosto. Na travessia de ida, uma garota, linda, da mesma faixa-etária, que não fazia parte da turma, encostou onde estávamos e colocou a mão sobre minha perna.

O sotaque indicava que era do interior e, sem adultos da família por perto, estava num assanhamento só. As faces das meninas do grupo expressavam uma certa censura e os garotos, imagino, eram solidários a mim. Olhei sério para a emissária de Satanás por alguns segundos, o suficiente para admirar bem a sua beleza e deixá-la constrangida ao mesmo tempo.

Sem graça, ela não ficou e, em seguida. disse que eu estava olhando de um jeito que parecia querer jogá-la na água. Não era isso exatamente que eu pensava fazer, mas o policiamento ao redor me impedia. Ela acabou se afastando e ficou por aí.

Nesse caso, o toque estava sendo mais do que apreciado. Mas a questão é que, ao contrário das meninas, normalmente os garotos crescem com a noção de que não devem impor limites ao contato físico de pessoas do sexo oposto.

Ao ler notícias sobre professoras dos Estados Unidos que se envolvem com alunos menores, eu já brinquei que lamentava nunca ter tido uma professora gatinha que tenha dado em cima de mim.

Mas, fora do anedotário, homens latinos quase sempre se deparam com a demanda social pela virilidade à toda prova, por estarem sempre dispostos, ainda que isso, em alguns casos, seja um enorme teatro.  Já ouvi um amigo dizer que ele era “homem mesmo” porque sempre estava apto a transar, mesmo que a parceira não lhe parecesse atraente.

Nesse aspecto, a vida das mulheres é um pouco mais fácil. Se ela não quiser e não estiver ao lado de uma pessoa violenta, a situação está resolvida. Para o macho, dizer não significa abrir mão de sua reputação.

Aparentemente, as coisas estão mudando.  Um amigo com pouco mais de 30 anos me disse que até os 20 se sentia compelido a pegar quem aparecesse pela frente. Mas que agora ele sente a necessidade de respeitar o seu desejo e não embarcar no conto do homem sempre disposto. Que, sim, pode existir, mas não é uma regra. Meu corpo, minhas regras, disse ele.