Salvador está perdendo a personalidade, diz jornalista Mary Weinstein

Gilson Jorge

Nenhum jornalista empenhou-se tanto na defesa do patrimônio histórico de Salvador, nas últimas duas décadas, pelo menos, quanto Mary Weinstein, uma ex-dançarina que iniciou a carreira de repórter na TV Bahia. No Caderno 2 de A TARDE, começou em 2001 e, dois anos depois estava se dedicando à questões de cidade, como a preservação das pedras portuguesas, de edifícios históricos e de tradições culturais da Bahia, como o Candomblé.

Suas armas para colocar em discussão o avanço das modernizações urbanas que eram feitas aleatoriamente, sem planejamento sobre a velha São Salvador eram o jornalismo. De vez em quando, interferia pessoalmente ao encontrar autoridades. Como em 2008, durante uma caminhada pela orla viu Geddel Vieira Lima, então homem forte na administração de João Henrique Carneiro, candidato à reeleição. Recomendou que a rampa na entrada do Forte de Santa Maria, na Barra, fosse mantida.

De fato, o equipamento escapou à obra feita no bairro. Mas não ficou incólume à reforma seguinte, iniciada ainda no primeiro ano de mandato do prefeito ACM Neto. Um novo acesso para cadeirantes foi construído em seu lugar. “Acessibilidade é importante. Mas não precisava destruir a rampa que estava ali provavelmente desde o início”.

“O próprio ministro da cultura reconheceu tardiamente que as pedras portuguesas não deviam ter sido retiradas com a autorização do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Antes, ao falar com uma arquiteta do mesmo instituto de proteção, ouviu que os pescadores não eram patrimônio imaterial registrados oficialmente como tal. E que por isso o Iphan nada poderia fazer para evitar que sumissem da paisagem. Mas não dá para dissociar uma coisa da outra,”, diz a jornalista.

Segundo ela, patrimônio material e imaterial são indissociáveis. A defesa da cultura de pescadores na cidade de Dorival Caymmi foi narrada menos de dez minutos depois que Mary recusou uma moqueca do cardápio de um restaurante ao ser informada de que o peixe não era fresco. “Uma cidade marítima, sem peixe?

Sobre a centenária balaustrada, Mary destaca que os equipamentos originais, degradados “por falta de manutenção”, foram substituídas. “Fizeram um pastiche que já está descascando, também. O que fez pensar o gestor que uma balaustrada de material parecido com o gesso poderia tomar o lugar de uma que resistiu durante 100 anos? Mary reside atualmente em Vitória da Conquista, onde é professora universitária. Em suas andanças pelo antigo bairro da Barra, agora como turista, ela critica mudanças que foram feitas em um lugar “onde os moradores não caminham mais”.

Lembra da banca de revistas ao fim da Princesa Isabel, desembocando no Porto, que atrapalhava a vista para o mar de quem descia a Av. Princesa Isabel, mas que era um ponto de referência para os moradores. A banca saiu e a vista continua tapada, agora por viaturas da Transalvador e até um ônibus da polícia. “Não é possível que as autoridades não achem outro lugar para colocar esses automóveis. Que banheiros químicos estejam à beira-mar”. A sombra da modernidade que avança sobre o tradicional bairro de Mary tem ainda um gigantesco ícone ameaçador: O La Vue, torre de 24 andares que está sendo erguida na Ladeira da Barra, na vizinhança da Igreja e Outeiro de Santo Antônio da Barra, construída no final do Século 17.

O site do empreendimento indica que o primeiro andar vai ter a altura equivalente ao que seria o sexto pavimento, numa lógica que garanta a todos os moradores a vista para o mar. O empreendimento tem sido criticado e a sua construção está na justiça. Mesmo assim, as obras não param. Mas e o entorno? Mary afirma que o prejuízo urbanístico não se limita à mudança no frontispício da cidade e ao ataque frontal à “preexistência” do bairro. “Isso vai afetar a Barra e a cidade como um todo”.

Mary considera que as recentes aprovações do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) e da Lei de Ordenamento do Uso e da Ocupação do Solo (Louos) são apenas a exacerbação de uma tendência de autodestruição urbana que acomete a cidade já há muito tempo, desde que o PDDU foi promulgado ainda na gestão de Imbassahy. “Salvador teve uma arquitetura bela por muitas décadas, mas agora está perdendo a personalidade. O Morro do Ipiranga, que tinha várias casas geniais de Diógenes Rebouças (arquiteto responsável por obras como o Hotel da Bahia e a antiga Fonte Nova), agora tem uns prédios que parecem aqueles transformers (série de filmes de ação). Morro do Ipiranga Mary não acha que Salvador esteja se miamizando, como se costuma dizer em relação às mudanças urbanísticas da capital baiana. “Se a cidade estivesse imitando Miami, seria até bom. Lá tem um conjunto de prédios art deco, que poderia ter desaparecido para dar lugar a prédios lucrativos, mas que está lá protegido, ninguém mexe nem com eles, nem com o entorno – isso garante a memória e o próprio lugar como atrativo turístico. Os prédios enormes foram construídos em outras partes”. O distrito de South Beach, em Miami, mantém cerca de 800 edificações no estilo art deco, erguidas entre 1935 e 1941, no Registro Nacional de Locais Históricos. “Miami é muito bacana”. A jornalista que se especializou em patrimônio histórico remarca que o descaso com os tesouros urbanos da cidade também é histórico e acredita que, na atual gestão, as agressões ocorram por decisões tomadas nos níveis inferiores da hierarquia municipal. “O prefeito é um homem culto, que conhece muitas cidades. Mas precisa andar por Salvador para ver o que vem acontecendo com ela”.

 

 

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