O inglês romântico que virou notícia no Brasil

Gilson Jorge

Há quase 13 anos, o inglês Geoff Pierce passava as manhãs de junho, julho e agosto no Café do Porto, Avenida Princesa Isabel, logo que fazia a primeira refeição do dia no Praiamar Hotel, onde se hospedou quando teve a ideia de vir a Salvador em busca de uma baiana que conhecera em Machu Picchu, Peru, e de quem não sabia o nome ou o endereço. A cidade era muito maior do que imaginara, mas ele já havia viajado e precisava arriscar maneiras de encontrar a moça que lhe impressionou tanto a ponto de partir para uma aventura, em uma cidade que não estava originalmente em seus planos de viagem.

Sem falar português, apareceu no dia 11 de junho de 2004 na redação do jornal em que eu trabalhava disposto a contar a sua história.  A recepcionista lembrou que eu falava inglês e me pediu para atendê-lo.  No Brasil era véspera do Dia dos Namorados, que no Reino Unido é comemorado em 14 de fevereiro, e a editora decidiu que eu largaria a pauta de economia para acompanhá-lo, com fotógrafo, em sua busca pela cidade. Parte da redação torceu o nariz para a história, que ganhou o Brasil, com direito a uma aparição no Jornal da Globo.

Por quê tinha tanta gente interessada na vida amorosa do britânico?  A correspondente de uma revista alemã nos Estados Unidos disse à época que seus editores na Europa estavam ansiosos por um final feliz. Mas Geoff e a baiana misteriosa nunca se encontraram.

Ele continuou vindo a Salvador regularmente, já sem esperanças de encontrar a moça. A cidade havia virado o motivo e o café era um lugar confortável, onde interagia com outros estrangeiros em viagem, amigos locais, gente que ainda o reconhecia da mídia e com o próprio dono, um italiano que se casou com uma baiana e viu no estabelecimento uma chance de ganhar alguma renda. Mantivemos contato e em algumas das suas visitas nos encontramos para falar de sua história, de política internacional, de futebol e de outros temas que ocorriam. Alguns amigos meus ficaram curiosos e resolveram conhecê-lo para dar palpites.

Em 2007, no mesmo café, o inglês conheceu uma professora, fluente em seu idioma, e eles engataram um romance. Ela também havia reconhecido o homem romântico das páginas de jornal. Eu os vi em uma sessão do filme Eu, Daniel Blake, no Cinema do Museu.

Marcamos um bate-papo em outro lugar. O Café do Porto, depois de mudar de dono e nome algumas vezes, está reabrindo como um depósito de bebidas. A moça de Machu Picchu está fora de pauta e nos restaram os temas políticos. Pierce acredita que pessoas da classe operária como Blake votaram em peso a favor do Brexit. Mas não somente eles,  também gente da academia, desiludida com  a União Europeia.

Pierce está planejando levar a namorada para viver no Reino Unido, se a burocracia estatal, da qual fez parte até se aposentar há poucos anos, não lhes atormentar a vida, como fez com Blake. E assim como a personagem Katie, se vê forçado a abandonar Londres, muito cara para se viver.