Almir, um engenheiro do som

Gilson Jorge
Foto: Liz Nunes
Quando tinha cinco anos de idade, o engenheiro aposentado Almir Santos, 82, parou em frente à casa de um vizinho para ouvi-lo tocar violão. O homem incentivou o pequeno fã a cantar alguma coisa e se surpreendeu ao escutar aquele ser humano pequenininho, “que ainda acreditava em Papai Noel”, empostar a voz para cantar Vicente Celestino, cantor preferido da mãe do garoto seresteiro.
Almir, obviamente, nem fazia ideia do que estava cantando, mas assim como seus 10 irmãos herdou o gosto materno  pela música.
Na adolescência, um violão apareceu em casa. Uma de suas irmãs  comprou o instrumento, mas desistiu de estudar e acabou repassando-o a outro irmão, que virou o companheiro oficial de serestas para  Almir. A essas alturas, Vicente Celestino já tinha perdido espaço no coração do jovem seresteiro para Orlando Silva. Depois chegaria a vez de Nelson Gonçalves.
Almir se formou em engenharia, foi trabalhar no antigo Derba (Departamento de Estradas e Rodagens da Bahia), casou-se e teve filhos, mas nunca abandonou as serestas, um delicioso vício, como a cerveja e o caldo de cana.
Com a massificação dos videokês, na década de 1990, Almir passou a prescindir de um acompanhante o violão e qualquer bar com o equipamento recebia suas visitas frequentes. De acordo com os cálculos do engenheiro, foram 130 bares em Salvador, Feira, Vitória da Conquista, Barreiras, Rio, São Paulo, Curitiba…
“A música me acalma”, diz. E ele sempre começa suas apresentações, calmamente, em ré menor “para esquentar a voz” antes de arriscar canções que demandem mais do cantor.
No início de março de 2017, Almir voltava para casa quando avistou um videokê no Hot Dougie’s, no Porto da Barra.
Aproximou-se, colheu um dos catálogos de música disponíveis e escolheu inaugurar o seu local de 131º videokê  com “As Rosas não falam”, de Cartola.  Terminou aplaudidíssimo e desde então vai ao bar frequentemente. Almir nunca se profissionalizou, mas já gravou três CDs e, claro, envaidece-se quando sua interpretação é apreciada. “É ótimo quando te aplaudem ainda no meio da música”. Como aconteceu uma vez com My Way,  a canção eternizada por Sinatra. Assim que o arranjo terminou e ele retomou o canto, pronunciando “regrets”, vieram as palmas.
Metódico como um bom engenheiro, Almir e seu irmão Ferreirinha, que canta no Paroano sai melhor, juntaram-se em uma quarta-feira chuvosa no Hot Dougies para esperar o videokê, que naquele dia acabou não acontecendo, e conversaram sobre o livreto que Ferreirinha preparou, com canções de seu gosto, incluindo umas  que não estão no catálogo do bar, com seus respectivos números. Na verdade, alguns códigos ele tem gravados na cabeça, como o de Mia Gioconda, que era cantada por Celestino. Agora, ele não depende nem do violão nem de esperar que outros clientes liberem o catálogo para soltar a sua voz.