Paterson: guiado pela poesia

Paterson, Nova Jersey, tem cerca de 150 mil habitantes e um perfil singular. Foi a principal produtora de seda nos Estados Unidos do início século passado, fez em 1930 uma greve por redução na jornada de trabalho, que marcou o sindicalismo americano, e tem apenas um terço de sua população formada por brancos. Seu nome é uma homenagem ao norte-irlandês William Paterson que, aos cinco anos de idade, mudou-se com a família para o país, tornou-se juiz e o segundo governador de Nova Jersey.
Também é o nome do protagonista do novo filme de Jim Jarmusch, um motorista de ônibus que escreve poemas. Paterson é um cara cordato e observador, que escuta com atenção as conversas de passageiros, contempla a paisagem da cidade e  recolhe informações que servem de matéria-prima para os seus poemas.

Quando volta para casa à noite, repete a rotina que lhe deixa confortável: jantar com a companheira, levar o cachorro para passear, tomar uma cerveja no bar do Doc e voltar para casa, para os braços da linda e extravagante Laura. Despertar ao lado dela, checar as horas e fazer um carinho em sua amada antes de ir para o trabalho.

Uma interpretação magistral de Adam Driver (!),  que em pequenos gestos deixa claro, às vezes, que faria as coisas de um jeito diferente quando a mulher decide pintar uma parede, investir na compra de um instrumento ou lhe entregar o cão pela coleira, determinando que o leve para passear.  Mas não reclama. Paterson não é pusilânime, simplesmente não se importa que as coisas não saiam do jeito que avalia o mais adequado.  Ele ama sua rotina ao lado dela.

Além da residência do casal, o filme gira basicamente em torno do ônibus e do bar da vizinhança, em cuja parede são pregadas fotos de  personagens marcantes da história da cidade. Paterson, o motorista, ri dos exageros cênicos de um ator apaixonado que frequenta o bar e sorri com as decisões bem singulares de sua companheira.

Laura quer mais do que a casa que decora de um jeito bem particular. Quer ficar rica como cantora ou fazendo cupcakes e tem um entusiasmo e um ativismo a cada nova ideia que deixaria sufocado qualquer mortal.  Golshifteh Farahani, que interpreta a candidata a milionária, é a atriz iraniana que foi banida de seu país e radicou-se na França após fazer um ensaio sensual.

A harmoniosa relação familiar, curiosamente, é abalada no dia em que Paterson sai da rotina.

Jarmusch, que fez ótimas produções em preto e branco, como Daumbailó, Dead Man e Sobre Café e Cigarros, dessa vez limitou o uso dessas cores ao mundo de Laura.  O filme é uma deliciosa aventura poética sobre pessoas incomuns em ambientes comuns da cidade que foi homenageada em um poema de William Carlos Williams, o autor preferido do motorista.

Como em ônibus bem dirigido em uma estrada pavimentada, Paterson pode provocar sonolência em alguns momentos, mas quem se mantém de olhos abertos enxerga paisagens belíssimas surgidas de uma ideia aparentemente simples.