O cupido às vezes precisa de um tradutor

Gilson Jorge

gjorge@ocronista.com

 

Há muito tempo, ouvi uma piada europeia sobre como seria o céu e o inferno para alguém, a partir de estereótipos nacionais. No céu, teríamos um amante francês, um carro alemão, uma polícia inglesa e um chef italiano. Tudo organizado por um belga. No inferno, o carro seria francês,  a polícia alemã (da primeira metade do século XX), o chef inglês e o amante belga. E, para completar, a organização ficaria a cargo de um italiano.

Mas vamos esquecer carros, placas, polícia e organização para nos concentrarmos em um ponto. Como seria namorar ou seduzir uma pessoa que tem uma cultura diferente? Se já é difícil entender o que está acontecendo na cabeça de uma pessoa que fala a mesma língua e cresceu em um ambiente semelhante,  como é traduzir os sentimentos de um estrangeiro?

A fama do amante latino percorreu o mundo inteiro, colocando sob o mesmo rótulo colombianos, italianos, portugueses, espanhóis, argentinos e brasileiros. Mas qualquer pessoa que passou pelo menos um dia em dois desses países vai notar que, ainda que se recorram a estereótipos,  há grandes diferenças nas relações interpessoais em cada canto do planeta.

Para os argentinos, por exemplo, é comum beijar outro  cara no rosto, mesmo que eles tenham acabado de se conhecer. Desnecessário dizer que quando visitam o Brasil e vão repetir o tratamento amigável têm dificuldade em explicar que o beijo não está ligado à sexualidade.  Depois de dois anos morando em Buenos Aires, encontrei um amigo na rua, em Salvador, e o cumprimentei à maneira portenha.  O rapaz ficou todo desconcertado e, quando percebi o motivo, caí na risada. 

E os argentinos, por sua vez, estranham muito uma coisa que para os brasileiros é trivial: ir à praia trajando sunga (eles usam uma bermuda que vai até o joelho). Lá,  isso é motivo para olhar um outro homem de forma estranha.

Mas vamos à coisa do flerte. Como você pode ter uma ideia se uma pessoa de outro país está interessada em você ou não? Os manuais de sedução dizem que há regras universais, começando pelos olhares, correto? Bem, se você tem em mente uma garota argentina vai passar meses tentando descobrir, pois ela simplesmente não olha em sua direção, mesmo que,  você descobriu por outros meios,  ela interessada. Isso significa que, em geral, você vai ter que fazer um esforço bem maior para atrair a atenção de uma mulher daquela cidade. Teve um jovem canadense que me perguntou se no Brasil não seria mais fácil para ele paquerar.

E se a menina recusar um convite para jantar com você porque deve lavar a roupa? Se ela for dos Estados Unidos, provavelmente está falando a verdade. Ela pode pensar em você como um príncipe encantado, o homem que sonhou para ser o pai de seus filhos. Mas não há chance alguma de ela deixar a roupa suja amontoada para sair com você.  Já ouviu falar sobre o destino manifesto e como os americanos têm sempre algo a fazer para salvar a humanidade? Má sorte para você, mas naquele momento a missão dela é lavar roupas.

As garotas brasileiras nunca diriam isso. Nós somos muito sensíveis e achamos que esse é o tipo de coisa que pode machucar alguém. Quem vai se recuperar depois de ser trocado por uma máquina de lavar na noite de sábado? Uma brasileira nunca vai dizer que recusa seu convite por esse motivo. Ela pode inventar que seu avô acabou de morrer, que já tinha um compromisso com colegas de trabalho … Ou pode facilmente aceitar e deixá-lo esperando por horas até você descobrir que vai jantar sozinho.

Durante a sedução, algumas reações, de homens e mulheres, independem de onde a pessoa nasceu. Uma verdade é que às vezes você tem pouco tempo para se aproximar de uma pessoa e parecer interessante. Outra é que a outra pessoa vai reagir de uma determinada maneira, dependendo de como foi seu dia, se ela te achou atraente ou não> Mas há coisas que dependem da cultura.

Uma amiga italiana estava em um bar com outras garotas quando um cara dinamarquês se aproximou e perguntou se ela gostaria de dançar. Ela respondeu “não” e o cara se mandou.  Para um bom escandinavo, não é não… Mas ela queria dançar com ele, só esperava que o convite fosse feito de novo. Se o sujeito fosse brasileiro, insistiria até morrer e ela talvez aceitasse, mesmo que fosse só para se livrar dele antes da próxima música.

Relacionar-se com uma pessoa de outro lugar também pode significar deixar de lado seus conceitos de posse e traição.  Conheci uma norueguesa que quase terminou o namoro com um compatriota quando contou a ele que beijou um cara, durante sua estadia de seis meses na Bahia. No Carnaval…e descobri com os americanos que, de fato, eles só consideram que há sexo, entre um homem e uma mulher, quando o contato envolve  penetração. O caso de Bill Clinton com a estagiária passou a fazer todo sentido.

E conheci um brasileiro bem machão que acabou se apaixonando por uma alemã, adepta do FKK , sigla em alemão para “cultura do corpo livre”. Em uma festa, enquanto a moça dançava animadamente, seus seios pulavam sem inibição para fora da blusa. O namorado não podia bancar o chefe, como estava acostumado a fazer, e em vez de pedir à garota que não exibisse o seu corpo, começou a rir, enquanto gesticulava para que os amigos não a olhassem.

E quando se trata de quão difícil pode ser a compreensão da sedução, devemos mencionar uma cena do filme Tootsie em que o personagem interpretado por Dustin Hoffman, fingindo ser uma mulher, escuta cuidadosamente toda a fantasia do personagem de Jessica Lange, contando em detalhes que ela estava sonhando em ser agarrada por um estranho. No dia seguinte, sem usar roupas femininas, ele a encontra e faz tudo exatamente do jeito que ela disse. E recebe um tapa no rosto. Na vida real, o ímpeto viril pode  funcionar independente da nacionalidade da menina. Mas ajuda muito se você for George Clooney. Ou se ela não tiver roupa para lavar.