O pecado de não ser nacionalista

Uma metáfora bíblica afirma que o profeta não tem honra em sua própria terra. Pois depois de 40 anos sem visitar Salas, seu povoado natal, o escritor Daniel Mantovani, argentino radicado na Espanha, decide cancelar uma série de compromissos importantes, logo após conquistar o Nobel de Literatura, para atender ao convite de seus conterrâneos.  A chance de um ateu desmentir as escrituras sagradas no país do Papa.
Avesso a aparições públicas, aceita desfilar em carro aberto, dar palestras, ser jurado de um concurso amador de pintura e uma maratona de eventos provincianos em que o filho ilustre da terra vai reencontrar rostos importantes de sua juventude e uma infinidade de pessoas que, por um lado se orgulham do escritor, com o mesmo   afã que enaltecem o Papa, Maradona e Messi, símbolos máximos da importância argentina no mundo, e, por outro, ruminam um certo rancor pela maneira pouco elogiosa com que a gente do povoado é retratada em seus livros.
Ao voltar, Mantovani nāo apenas bate de frente com o nacionalismo/bairrismo exacerbado, mas se mete em uma complexa relação familiar cuja existência ignorava.
Irene, a namorada da adolescência, agora está casada com o então melhor amigo de Daniel. Uma relação iniciada depois que as inquietações juvenis levaram o futuro escritor a deixar para trás o provincianismo de Salas.
O filme retrata com maestria a cafonice de políticos e da elite local frente ao súbito protagonismo alcançado pela comunidade, e sua relação de amor e ódio com o artista que, a seu ver, traiu os valores nacionais para se vender aos europeus.
Aos poucos, Daniel se vê perigosamente enredado pelas demandas de conterrâneos que querem, de alguma forma, tirar proveito de sua rara presença e se mostram,  cada vez mais, parecidos com os personagens que desataram sua ira.
Uma primorosa atuaçāo de Oscar Martínez, amparado por um roteiro absolutamente bem amarrado, marca do cinema argentino que poderia brigar com os craques do futebol como motivo de orgulho nacional no exterior.